A Angústia do Gabarito: O ENEM e a loteria de destinos da juventude brasileira
Mais do que uma prova, um rito de passagem brutal. Por que transformamos dois domingos em um veredito definitivo sobre o valor e o destino de uma geração inteira?

Imagine o Lucas. Dezessete anos, morador de Feira de Santana, Bahia. Há meses, o quarto dele é um bunker de apostilas, canetas pretas de corpo transparente e latas de energético vazias. O mundo lá fora continua girando, mas o universo de Lucas colapsou em um único ponto gravitacional: a nota de corte para Medicina na Federal. A história dele não é única; é um eco repetido milhões de vezes, de norte a sul do país, toda vez que o calendário marca novembro.
O Exame Nacional do Ensino Médio, nosso onipresente ENEM, nasceu nos anos 90 como uma ferramenta de diagnóstico (quase ingênua, diriam alguns). Hoje? É o monstro no armário. Tornou-se o fiel da balança que decide quem sobe o elevador social e quem fica preso no térreo. E aqui reside a crueldade silenciosa do sistema: vendemos a ideia de meritocracia em um jogo onde as regras são iguais, mas os jogadores entram em campo com equipamentos drasticamente diferentes.
"Não estamos apenas testando conhecimentos de química ou interpretação de texto. Estamos testando a resistência psicológica de adolescentes que mal aprenderam a lidar com suas próprias emoções."
A pressão vai muito além da sala de aula. Virou uma questão de identidade. Para a Geração Z, que já carrega o peso do mundo digital nas costas, o ENEM não é apenas sobre entrar na faculdade; é sobre validação existencial. Falhar na prova é lido, erroneamente, como falhar na vida. Vemos jovens medicados para ansiedade antes mesmo de terem o direito de votar. É saudável normalizar o burnout aos 17 anos?
O nômade do SISU
E quando a nota sai? Começa a segunda etapa da gincana: o nomadismo universitário. O sistema de seleção unificada (SISU) criou uma diáspora estudantil fascinante e aterrorizante. O estudante do interior do Rio Grande do Sul descobre que sua nota o leva para o Acre. A menina de Minas Gerais passa no Ceará. Maravilhoso para a integração nacional, certo? (Na teoria, sim). Na prática, impõe um custo financeiro e emocional de desenraizamento que muitas famílias simplesmente não conseguem bancar.
👀 O diploma ainda é o bilhete dourado?
O impacto, portanto, não é apenas acadêmico. É demográfico, é econômico e, acima de tudo, humano. O ENEM molda onde esses jovens vão morar, quem vão conhecer, com quem vão casar e qual sotaque seus filhos terão. É um engenheiro de destinos operando em escala industrial.
Talvez devêssemos perguntar: até quando aceitaremos que dois domingos de novembro definam, com tanta rigidez, o que é sucesso e o que é fracasso? O Lucas, lá da Bahia, merece mais do que ser resumido a um número de três dígitos.
