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A engrenagem invisível: como o 'olé' foi engolido pelo algoritmo

O grito mais catártico do futebol deixou de ser apenas uma provocação romântica. Hoje, a arquibancada alimenta um banco de dados implacável.

CP
Chris PattersonJournalist
27 February 2026 at 05:02 am3 min read
A engrenagem invisível: como o 'olé' foi engolido pelo algoritmo

Imagine a noite fria no Maracanã (ou em Anfield, se você preferir o sotaque britânico da chuva fina). Aos 82 minutos, o time da casa ganha por 3 a 0. O lateral toca para o volante. Olé. O volante recua para o zagueiro. Olé. O zagueiro inverte a bola, desenhando uma parábola perfeita que cruza o céu escuro antes de aterrissar no peito do ponta. A arquibancada inteira, num uníssono quase místico, ruge o terceiro olé.

Até pouquíssimo tempo, isso era folclore puro. Um momento efêmero de humilhação do adversário e êxtase coletivo, feito de oxigênio, cordas vocais e cerveja quente. Hoje? Esse som de três letras é rastreado em frações de segundo por microfones direcionais de alta precisão, mastigado por servidores em nuvem e cuspido de volta como gráficos de barra num painel de controle executivo.

Por que a paixão precisou ser transformada em matemática?

A resposta cínica aponta para o dinheiro (nenhuma surpresa aí). Mas a mecânica por trás desse movimento é perturbadora. Onde quer que haja emoção humana em estado bruto, existe um subúrbio digital tentando descobrir como empacotar e vender isso em tempo real. Startups de tecnologia esportiva e gigantes da transmissão estão utilizando inteligência artificial acústica para mapear o momentum de uma partida. O cântico deixou de ser apenas ar expelido por pulmões apaixonados para se tornar um gatilho de código.

"Nós deixamos de transmitir apenas o jogo; agora ensinamos a máquina a sentir a temperatura da multidão para reter a atenção da Geração Z na segunda tela."

Isso nos obriga a olhar para o cimento das arquibancadas com uma lente dolorosamente fria. O que acontece quando o torcedor descobre que seu grito visceral é, no fundo, um KPI (Indicador-Chave de Desempenho) para o departamento de marketing da liga? A catarse perde sua mágica se for imediatamente usada para disparar publicidade dinâmica nos painéis de LED à beira do campo exatos cinco segundos depois?

👀 O que as plataformas fazem com o som da sua voz?
As big techs esportivas não querem apenas guardar um belo áudio. O pico acústico rítmico do 'olé' aciona algoritmos de clipagem inteligente (gerando cortes virais para o TikTok antes mesmo de o jogo acabar), ajusta instantaneamente as odds (probabilidades) em sites de apostas parceiros e dispara notificações push apelativas nos celulares de usuários inativos, seduzindo-os a voltar para a transmissão.

Pense nas torcidas organizadas (aqueles últimos e indomáveis redutos do imponderável). De repente, todos viraram trabalhadores não remunerados das plataformas digitais. Cada provocação rítmica, cada xingamento coreografado, acaba engordando o algoritmo sem pedir licença.

Mas será que o código já consegue capturar a ironia fina de um olé gritado quando o próprio time está sendo humilhado em casa, numa pura demonstração de protesto sarcástico? A máquina, por enquanto, é terrivelmente literal e um pouco burra. Ela enxerga apenas volume, constância e frequência temporal. E talvez resida exatamente aí a nossa única salvação. O dia em que um servidor da Amazon conseguir decifrar o desespero cínico por trás de um grito desesperado da arquibancada, o esporte terá, sem sombra de dúvida, apitado o seu apocalipse.

CP
Chris PattersonJournalist

Journalist specialising in Sport. Passionate about analysing current trends.