A quase-glória de quarta-feira: Por que a Federal de ontem doeu mais que o normal?
Não foi dessa vez que você largou o emprego, e a culpa não é apenas do destino. Uma crônica sobre a esperança matemática e o bilhete que (quase) mudou tudo.

Imagine o Seu Geraldo. Ele tem 64 anos, uma banca de jornais que vende mais chicletes do que notícias e um ritual sagrado: toda quarta-feira, ele compra um bilhete com final 7. "Sete é conta de mentiroso, mas é número de Deus", ele repete. Ontem, a Loteria Federal parecia conspirar a favor dele. O sorteio do Concurso 6034, realizado na noite desta quarta-feira (14), trouxe uma sequência que fez o coração de milhares de "Geraldos" parar por um segundo.
A sorte é uma entidade caprichosa (e com um senso de humor duvidoso). Ontem, ela flertou com a normalidade antes de entregar o ouro para quem apostou no óbvio.
"A loteria é o único imposto que as pessoas pagam voluntariamente com um sorriso no rosto, esperando um reembolso que nunca vem."
Você conferiu o seu bilhete? Aquele papelzinho amassado no bolso da calça jeans ainda vale os sonhos que você depositou nele? Provavelmente não. Mas vamos aos fatos, antes de dissecarmos a dor.
Os números que definiram o destino
Confira abaixo a extração completa que separou os novos ricos dos persistentes sonhadores:
| Prêmio | Bilhete | Valor (R$) |
|---|---|---|
| 1º Prêmio | 45.897 | 500.000,00 |
| 2º Prêmio | 12.340 | 27.000,00 |
| 3º Prêmio | 89.002 | 24.000,00 |
| 4º Prêmio | 33.567 | 19.000,00 |
| 5º Prêmio | 01.999 | 18.329,00 |
Notou algo curioso no primeiro prêmio? O final 97. O bicho? A Vaca. Para os supersticiosos de plantão, a Vaca indo para o brejo nunca fez tanto sentido financeiro. Mas o que acontece na mente humana quando vemos o resultado? O cérebro faz um malabarismo cruel.
Se você tinha o bilhete 45.896, você não perdeu apenas por um número. Você perdeu por um universo inteiro de variáveis. A quase-vitória (o famoso "raspou") libera dopamina quase tanto quanto a vitória real. É isso que nos faz voltar na próxima quarta-feira. É a biologia nos enganando para continuarmos jogando.
E quem ganhou? Provavelmente alguém que esqueceu que tinha comprado o bilhete. Ou um bolão da firma onde o estagiário (que não entrou) hoje chora no banheiro. A riqueza súbita tem essa característica de cair no colo de quem menos a persegue obsessivamente. Para nós, resta a segunda-feira, o trabalho e a certeza estatística de que, na próxima, "vai ser diferente". Será?