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Ana Paula Renault: O paradoxo político da 'patricinha' que desafia os rótulos

Por que a orientação política de uma ex-BBB importa tanto? Entre barracos lendários e processos judiciais, Ana Paula virou o teste de Rorschach de um Brasil viciado em polarização.

KJ
Kylie JonesJournalist
16 January 2026 at 02:01 am3 min read
Ana Paula Renault: O paradoxo político da 'patricinha' que desafia os rótulos

Lembro-me vivamente do momento em que o entretenimento brasileiro sofreu uma ruptura tectônica. Não foi um gol da Copa, nem o final de uma novela das oito. Foi um grito de "Olha ela!" ecoando numa casa cenográfica. Ana Paula Renault, a jornalista mineira que entrou para a história como a personificação do caos controlado (ou nem tanto), sempre carregou consigo o estereótipo perfeito: herdeira, branca, privilegiada, vinda da alta sociedade de Belo Horizonte. O roteiro estava pronto para que ela fosse a musa da direita conservadora, a "dondoca" alienada que o Twitter adora odiar.

Mas o roteiro falhou. E é nessa falha que reside a nossa obsessão.

Quando Ana Paula, anos depois de sua expulsão do BBB, apareceu batendo boca com Nikolas Ferreira em um avião — gravando tudo com a fúria de quem não tem medo de processo —, a internet entrou em curto-circuito. Como assim a "patricinha" estava confrontando o ícone do bolsonarismo jovem? A dissonância cognitiva foi imediata. Ali, ela deixou de ser apenas uma persona de reality show para se tornar um campo de batalha ideológico.

No Brasil pós-2018, não permitimos que celebridades sejam apenas celebridades. Elas precisam ser avatares das nossas próprias frustrações políticas. O silêncio é lido como conivência; o grito, como oportunismo.

A curiosidade sobre se ela é "de esquerda" ou "de direita" diz muito pouco sobre as convicções econômicas de Ana Paula (que, convenhamos, nunca lançou um manifesto sobre a reforma tributária) e tudo sobre a nossa necessidade de purismo. Queremos saber se podemos consumir a imagem dela sem culpa moral. Se ela votou no Lula, a esquerda a abraça como "camarada Ana", ignorando seu histórico elitista? Se ela critica o PT, a direita a resgata como "sensata", esquecendo seus embates progressistas?

A verdade é mais suja, mais humana e muito menos binária.

👀 Afinal, onde ela se posiciona no espectro?

Ana Paula Renault tem se consolidado como uma figura anti-bolsonarista vocal, o que a aproxima das pautas da esquerda e centro-esquerda no cenário atual. Ela defende direitos das minorias e ataca o conservadorismo reacionário. Contudo, rotulá-la como uma comunista de carteirinha seria ignorar sua origem e seu individualismo liberal. Ela habita aquele espaço raro (e barulhento) da "burguesia progressista" que tanto irrita os extremos.

O que torna Ana Paula fascinante não é a coerência de seu discurso político, mas a autenticidade de sua indignação. Ela opera na política com a mesma lógica do reality show: a busca pela "verdade" doa a quem doer. Em um país onde políticos agem como influenciadores, é natural que influenciadores sejam cobrados como políticos.

Mas há um perigo aqui. Ao exigirmos que cada figura pública passe por esse escrutínio ideológico, esvaziamos o debate real. Transformamos a política em torcida organizada, onde Ana Paula Renault é apenas mais uma jogadora que precisamos decidir se escalamos ou vaiamos. E enquanto discutimos se ela é "esquerdopata" ou "infiltrada", deixamos de notar que a polarização se tornou o produto de consumo mais rentável da internet.

Ela, esperta que só, sabe disso. E continua gritando. Resta saber se estamos ouvindo o conteúdo ou apenas o barulho.

KJ
Kylie JonesJournalist

Journalist specialising in People. Passionate about analysing current trends.