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Fernanda Torres: A neurose como última linha de defesa da cultura

Esqueça a herdeira da realeza teatral. Nanda é a cronista do nosso colapso, rindo enquanto o barco afunda (e nos ensinando a nadar).

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Isla ConnorJournalist
25 January 2026 at 11:01 am3 min read
Fernanda Torres: A neurose como última linha de defesa da cultura

Lembro-me da primeira vez que vi Fernanda Torres não como "a filha da Fernanda Montenegro", mas como uma força da natureza autônoma. Não foi no cinema de arte, nem nos palcos sagrados. Foi numa terça-feira qualquer, na televisão aberta, encarnando a Vani de Os Normais. Ali, entre um surto psicótico e uma piada de gosto duvidoso, ela nos ensinou algo que levaríamos décadas para processar: a sanidade é superestimada.

Corta para o presente. Aquela mesma mulher, que nos fez rir da nossa própria mediocridade, agora carrega o peso da história brasileira nas costas em Ainda Estou Aqui. A transição não é apenas um feito de atuação; é um diagnóstico do Brasil.

“A tragédia brasileira é que a gente ri para não ter que admitir que está chorando. A Fernanda entendeu isso antes de todo mundo.”

Fernanda Torres tornou-se a voz dissonante necessária em um mar de influenciadores que vendem uma vida editada em filtros pastéis. Enquanto a cultura pop moderna exige perfeição e engajamento positivo, ela nos oferece o fracasso. Seja nos seus livros (como o corrosivo Fim) ou nas suas entrevistas caóticas, ela abraça a feiura da existência. (E, convenhamos, nada é mais libertador do que ver alguém admitir que envelhecer é uma droga, mas a alternativa é pior).

O triunfo do Realismo Neurótico

Por que ela incomoda? Porque ela recusa o papel de diva intocável. Fernanda escreve e atua como quem disseca um cadáver: com precisão cirúrgica e zero sentimentalismo. Ao interpretar Eunice Paiva sob a direção de Walter Salles, ela não está apenas buscando uma estatueta dourada; ela está resgatando a memória de um país que insiste em ter amnésia. É uma bofetada de realidade em uma geração acostumada a ativismo de hashtag.

O que poucos analisam é o impacto mercadológico dessa postura. Fernanda provou que o público — sim, o grande público — não é burro. O sucesso da adaptação de Fim demonstrou que há sede por narrativas complexas, onde os heróis são patéticos e os finais não são felizes. Ela reescreveu o roteiro do que é "comercial" no Brasil, provando que a inteligência vende.

👀 O tal do Oscar: Expectativa vs. Realidade

Todo mundo quer saber: ela vai trazer a estatueta que a mãe "perdeu" (ou foi roubada, sejamos honestos) em 1999? A campanha é forte. Mas reduzir o trabalho de Fernanda Torres a uma vingança familiar ou nacional é diminuir sua obra. Se o Oscar vier, será consequência, não objetivo. O verdadeiro prêmio foi ter transformado Eunice Paiva em um ícone pop de resistência silenciosa num momento em que o barulho é a norma.

Não estamos lidando apenas com uma atriz no auge da maturidade. Estamos observando uma intelectual pública que usa a própria neurose como ferramenta de análise social. Ela olha para o abismo, o abismo olha de volta, e ela pergunta: "Será que dá para transformar isso numa crônica de domingo?"

Fernanda Torres não é o futuro da cultura brasileira. Ela é o presente urgente, gritando que, para sobrevivermos aos tempos líquidos, precisaremos de mais do que likes. Precisaremos de estômago.

IC
Isla ConnorJournalist

Journalist specialising in Culture. Passionate about analysing current trends.