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A Armadilha do Diploma: O ProUni e a Ilusão da Ascensão Social

Esqueça as fotos sorridentes das propagandas governamentais. Vinte anos depois, é hora de olhar os recibos: o programa democratizou o acesso ou apenas financiou gigantes da educação privada com isenções fiscais?

JC
Jennifer ClarkJournalist
January 26, 2026 at 05:01 AM3 min read
A Armadilha do Diploma: O ProUni e a Ilusão da Ascensão Social

Os gráficos do Ministério da Educação são lindos. Linhas ascendentes, milhões de bolsas concedidas, uma narrativa de triunfo sobre o atraso histórico. Visto de longe, o Programa Universidade para Todos (ProUni) parece o conto de fadas perfeito da meritocracia assistida. Mas aproxime a lupa. O que vemos?

Não sou contra o acesso. Pelo contrário. Mas precisamos falar sobre a natureza desse acesso. O ProUni, criado em 2004, foi vendido como a chave mestra para a classe C entrar no elevador social. Duas décadas depois, o elevador parece emperrado entre o térreo e o primeiro andar.

“Dar o acesso sem garantir a permanência ou a qualidade do diploma não é política pública, é estelionato educacional.”

O Balcão de Negócios do Ensino Superior

Vamos ser brutalmente honestos? O ProUni serviu tanto aos estudantes quanto aos grandes conglomerados educacionais (talvez mais a estes últimos). Enquanto o aluno ganha uma cadeira na sala de aula, a instituição privada ganha isenção fiscal maciça. É uma troca. O governo diz: "Não vou cobrar impostos de você, e você preenche essas cadeiras vazias que sobraram".

O resultado? Uma explosão de faculdades de esquina, as famosas "uniesquinas", e o fortalecimento de grupos educacionais listados na bolsa de valores que priorizam o lucro sobre a pedagogia. O diploma foi comoditizado. O estudante, muitas vezes vindo de uma base escolar frágil, é jogado em cursos com currículos duvidosos e suporte inexistente.

A pergunta que incomoda: um diploma de uma faculdade privada de terceira linha tem o mesmo peso no mercado que um da USP ou da Federal? O mercado de trabalho, cruel e elitista, já deu a resposta. Não tem. O prounista, muitas vezes, sai endividado (se usou FIES complementar) ou frustrado, com um canudo que serve mais como decoração de parede do que como passaporte para a classe média alta.

Expectativa x Realidade

Para entender o abismo, basta comparar o que se vende com o que se entrega:

A Promessa (Narrativa)A Prática (Realidade)
Democratização total do ensino superior.Expansão massiva, mas concentrada em cursos de baixo custo (Pedagogia, Administração, Direito) e EAD.
Empregabilidade garantida.Diplomação em massa gera "inflação do diploma". Engenheiros virando motoristas de aplicativo.
Custo zero para o aluno bolsista integral.A bolsa cobre mensalidade, não a vida. Transporte, alimentação e livros geram evasão silenciosa.

A Crise da Permanência

Estudar de graça custa caro. Esse é o paradoxo que os burocratas de Brasília ignoram. O aluno do ProUni geralmente trabalha o dia todo e estuda à noite (caindo de sono). A evasão nesses cursos é altíssima não por falta de vontade, mas por exaustão financeira e física. O programa colocou o estudante na universidade, mas esqueceu de perguntar como ele se manteria lá.

E tem o fator humano, o não-dito. O preconceito velado nos corredores. A sensação de não pertencimento. O estudante bolsista numa universidade de elite (quando consegue entrar em uma das poucas vagas nessas instituições) enfrenta um apartheid social invisível.

O Veredito Amargo

O ProUni é inútil? Longe disso. Para milhares, foi a diferença entre o subemprego perpétuo e uma carreira digna. Mudou a cara da universidade brasileira, que deixou de ser exclusivamente branca e rica. Isso é vitória.

Porém, tratar o programa como a panaceia da desigualdade é ingenuidade ou má-fé. Ele funcionou como um paliativo eficiente: acalmou a demanda social por educação superior sem que o Estado precisasse investir pesado na expansão da rede pública de qualidade.

Criamos uma geração de diplomados, sim. Mas entregamos a eles a promessa de um futuro que a economia estagnada e o preconceito corporativo se recusam a honrar.

JC
Jennifer ClarkJournalist

Journalist specializing in Society. Passionate about analyzing current trends.