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Banco Digimais: O velho dinheiro aprendeu truques novos?

Esqueça a narrativa do jovem de moletom no Vale do Silício. Por trás do Digimais, há uma dança complexa entre tradição bancária, impérios midiáticos e a luta sangrenta por nichos que ninguém mais quer.

RC
Robert ChaseJournalist
February 18, 2026 at 05:02 PM3 min read
Banco Digimais: O velho dinheiro aprendeu truques novos?

Há uma mentira confortável que contamos a nós mesmos sobre a revolução das fintechs: a de que Davi está derrubando Golias com uma fundinha feita de código Java e boas intenções. A realidade? Às vezes, Golias apenas colocou lentes de contato coloridas e criou um app.

Quando olhamos para o Banco Digimais, o instinto inicial é classificá-lo na mesma prateleira do Nubank ou do Inter. Erro crasso. Enquanto os "roxinhos" nasceram digitais, o Digimais é a reencarnação 2.0 do Banco Renner (não confundir com a loja de roupas, embora a família fundadora seja a mesma). Fundado em 1981, o banco tinha o cheiro de carpete velho das financeiras tradicionais do Sul. O que mudou? A embalagem e, crucialmente, os sócios.

“No Brasil, banco digital não é sobre tecnologia. É sobre Custo de Aquisição de Cliente (CAC). Se você tem uma audiência cativa, você não precisa do melhor app, você só precisa da chave do cofre.”

Essa audiência cativa não veio do nada. A entrada do Bispo Edir Macedo (via parcerias estratégicas e aquisições que movimentaram o mercado em 2020) mudou o jogo. De repente, não era apenas um banco tentando ser cool; era uma instituição financeira acoplada a uma máquina de mídia massiva, a Record TV. (Você notou a publicidade agressiva em 'A Fazenda'? Não foi coincidência).

A Ilusão da Disrupção

O ceticismo aqui é mandatório. O modelo de negócios do Digimais difere radicalmente dos neobancos que queimam caixa para crescer. Eles apostaram em nichos específicos onde a paixão supera a racionalidade financeira: Futebol e Fé.

Ao patrocinar clubes como Cruzeiro, Sport e Athletico Paranaense, o banco tentou converter torcedores em correntistas. Parece genial no papel. Na prática? A taxa de inatividade dessas contas costuma ser brutal. O torcedor abre a conta para ajudar o clube, ganha um cartão personalizado e... volta a usar o Itaú para receber o salário. É o clássico problema da "conta secundária".

CritérioNeobancos (ex: Nubank)Bancos Digitalizados (ex: Digimais)
OrigemTech First (Startups)Legacy (Bancos Tradicionais)
Estratégia de CrescimentoViralidade orgânica / UXParcerias de Mídia / Nichos
Público-AlvoMillennials / GenZClasse C / D / Torcedores
Desafio RealRentabilidade (Monetização)Engajamento (Principalidade)

Onde o calo aperta

Os números de downloads impressionam os desavisados, mas o mercado financeiro olha para o ROE (Retorno sobre o Patrimônio). A transição de Banco Renner para Digimais exigiu investimentos pesados em tecnologia para sair do legado jurássico. Isso custa caro. E competir com as taxas de juros dos grandes bancos, mantendo uma estrutura que, embora digital, carrega heranças do modelo antigo, é uma equação matemática ingrata.

O Digimais sobrevive não por ser o mais inovador, mas por ser resiliente e focado em um Brasil profundo que o Faria Limer médio ignora. Enquanto a Faria Lima discute IA generativa, o Digimais está financiando veículos usados no interior e oferecendo crédito para quem a grande banca rejeitou. É menos sexy? Com certeza. Mas talvez seja mais real.

A verdadeira pergunta não é se o Digimais vai desbancar o Bradesco. Não vai. A questão é: quanto tempo eles conseguem manter a relevância num mar onde até o varejista da esquina agora quer ser seu banco? A consolidação é inevitável, e o peixe médio é o que corre mais perigo de ser engolido.

RC
Robert ChaseJournalist

Journalist specializing in Economy. Passionate about analyzing current trends.