Detran-PE: A 'modernidade' que te faz perder o dia na fila do Expresso
Um site novo, um app colorido e a velha dor de cabeça. Por que a digitalização do trânsito em Pernambuco parece apenas uma gourmetização da burocracia?

A promessa era sedutora, quase utópica: resolver a vida na palma da mão. Sem atravessadores, sem sol na cabeça, sem o calvário dos guichês. Mas quem tentou renovar uma CNH ou emitir um CRLV no portal do Detran-PE recentemente sabe que a realidade tem um gosto amargo de pixel travado. A tal "transformação digital", alardeada em releases governamentais como a oitava maravilha do Agreste, soa cada vez mais como uma maquiagem de alta definição num sistema que opera com a lógica (e talvez os servidores) do século passado.
Não se deixe enganar pelo layout responsivo. O que assistimos em Pernambuco é o fenômeno da e-Burocracia: digitalizamos o formulário, mas mantivemos a mentalidade do carimbo. O cidadão agora tem o privilégio de passar raiva no conforto do seu sofá antes de ser inevitavelmente convocado a comparecer presencialmente.
O abismo entre o PDF e o asfalto
Os números oficiais costumam celebrar a quantidade de acessos ou downloads do aplicativo. Mas acesso não é resolução. Se você precisa clicar cinquenta vezes para agendar um atendimento que só tem vaga para daqui a dois meses (em uma cidade vizinha), o sistema não é eficiente; é um obstáculo gamificado.
| A Promessa Digital | A Realidade Pernambucana |
|---|---|
| CRLV (licenciamento) instantâneo após pagamento. | Baixa bancária que leva dias e o famigerado "erro de comunicação" ao tentar baixar o PDF. |
| Fim das filas físicas. | Você entra numa fila virtual para conseguir um agendamento para entrar numa fila física no Expresso Cidadão. |
| Atendimento humanizado via chat. | Robôs que giram em círculos e te mandam ler o FAQ que você já leu. |
Há uma perversidade econômica aqui que poucos discutem. Ao transferir para o usuário a responsabilidade de preencher dados, escanear documentos e validar bioametrías, o Estado economiza milhões em horas-homem. O cidadão virou o despachante não remunerado do próprio processo. E qual é a contrapartida? Taxas de bombeiros e licenciamento que sobem acima da inflação, enquanto a infraestrutura tecnológica soluça a cada pico de acesso.
"O único setor do Detran-PE que opera com eficiência suíça e disponibilidade 24/7 é o gerador de boletos para pagamento. Esse nunca sai do ar."
O paradoxo se agrava quando olhamos para quem fica de fora. A digitalização forçada exclui uma parcela imensa da população pernambucana que não tem familiaridade com a interface do Gov.br ou um smartphone capaz de rodar aplicativos pesados. Para esses, a "modernidade" significou o fechamento de postos locais e a centralização do caos em unidades superlotadas nos shoppings.
A pergunta que fica pairando sobre os corredores refrigerados do Expresso Cidadão não é sobre quando teremos uma tecnologia melhor, mas sobre a intenção por trás dela. A ferramenta mudou, mas a cultura de tratar o contribuinte como um súdito pedinte permanece intacta. Até que a lógica do serviço público suplante a lógica da arrecadação, o Detran digital será apenas um espelho high-tech de um atraso antigo.


