Edílson Capetinha: O profeta do caos que trocou a chuteira pelo algoritmo
Ele não apenas joga palavras ao vento; ele desenha a audiência com a mesma audácia das embaixadinhas de 99. Por que não conseguimos parar de ouvir o Capetinha?

Vinte de junho de 1999. O estádio do Morumbi pulsava como uma artéria prestes a estourar. Edílson, com a camisa do Corinthians, recebe a bola na lateral, o jogo estava ganho, o título paulista assegurado. O que ele faz? Para. Olha. E começa a fazer embaixadinhas. Não foi um drible; foi um manifesto. Naquela tarde, que terminou em uma pancadaria generalizada contra o Palmeiras, Edílson da Silva Ferreira não estava apenas jogando futebol. Ele estava inventando o entretenimento esportivo moderno.
Corta para o presente. O cenário mudou (sai o gramado, entra o estúdio com ar-condicionado), mas o modus operandi permanece intacto. Edílson Capetinha é, hoje, a ressurreição midiática mais improvável e, ao mesmo tempo, inevitável do Brasil.
"Na minha fase boa, eu fui melhor que o Neymar. Para ele jogar mais que eu, tem que ser campeão mundial. Eu tenho personalidade."
Você riu? Ficou indignado? Chamou-o de louco no grupo da família? Parabéns. Você caiu na armadilha do Capeta. E é exatamente isso que mantém a roda girando.
A transição de atleta para comentarista costuma seguir dois caminhos: o analista tático sóbrio (que ninguém entende, mas respeita) ou o ex-boleiro que conta piadas de vestiário. Edílson escolheu a terceira via: o Agente do Caos. Ao afirmar categoricamente que jogou mais que Messi ou Neymar, ele não está necessariamente fazendo uma análise técnica (embora, na cabeça dele, a lógica seja irrefutável). Ele está criando cortes. Ele entendeu a economia da atenção antes de muitos diretores de marketing.
👀 As maiores 'heresias' do Capeta (ou verdades inconvenientes?)
- Messi: "Para ser melhor que eu, tem que ser campeão mundial" (Disse antes de 2022. O argentino foi lá e ganhou. Edílson recuou? Jamais).
- Neymar: "Eu tenho mais recurso."
- Crítica tática: Frequentemente desmonta esquemas complexos com a simplicidade de quem resolveu jogos em finais de Copa do Mundo.
Mas por que damos ouvidos? Num futebol cada vez mais asséptico, dominado por media training e respostas programadas ("o importante são os três pontos"), Edílson é a voz da rua. É a conversa de bar elevada à potência máxima na televisão nacional. Ele representa uma era onde o futebol era malandragem, improviso e, acima de tudo, coragem para ser politicamente incorreto.
Sua presença na mídia, seja na TV aberta ou nos podcasts que se multiplicam como gremlins na chuva, preenche um vácuo. O público sente falta de heróis falíveis. Edílson é a antítese do comentarista de planilha. Ele fala com o fígado. E, convenhamos, há uma certa genialidade em manter-se relevante vinte anos após o auge físico, apenas usando a própria mitologia como combustível.
O que poucos percebem é a inteligência emocional por trás do personagem. Edílson sabe exatamente onde pisa. Ele provoca o sistema porque ele é o sistema. Ele dita a pauta da semana com uma frase solta numa segunda-feira à tarde. Se isso é jornalismo? Talvez não. Mas é, sem dúvida, o retrato mais fiel do futebol brasileiro atual: barulhento, nostálgico e impossível de ignorar.


