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O Clique Assassino: Por que a manchete grita 'Trans' antes de dizer 'Crime'?

Não é apenas jornalismo, é biópsia social. Quando a identidade de gênero vira o sujeito principal de uma tragédia, quem realmente está sendo julgado no tribunal da opinião pública?

JC
Jennifer ClarkJournalist
January 20, 2026 at 06:05 AM3 min read
O Clique Assassino: Por que a manchete grita 'Trans' antes de dizer 'Crime'?

Você viu o link no seu feed. Talvez tenha clicado, talvez apenas tenha balançado a cabeça com aquele ar de "eu sabia". A manchete era clara, cirúrgica e, ouso dizer, calculada: "Mulher trans mata ex-namorada". Ponto.

Mas paremos um segundo para dissecar essa estrutura frasal. (Sim, a gramática revela mais sobre preconceito do que qualquer estatística oficial). Por que a identidade de gênero precisa ser o adjetivo qualificador do assassino? Quando um contador de Curitiba mata a esposa por ciúmes, lemos "Contador mata" ou "Homem mata"? Raramente. Lemos "Tragédia no Paraná", "Crime passional" ou o nome do sujeito. O indivíduo cisgênero tem o privilégio da individualidade. Se ele mata, foi ele quem falhou.

Quando uma mulher trans comete um crime — e sim, pessoas trans cometem crimes, pois surpresa: são humanas e falhas —, a manchete convoca toda uma categoria demográfica para o banco dos réus. O subtexto gritante é: "Viram? Nós avisamos que elas são perigosas".

"A caneta que define a manchete muitas vezes carrega a mesma violência simbólica da arma do crime. Ela não mata o corpo, mas esquarteja a reputação de todo um grupo."

Essa disparidade editorial não é um erro do estagiário. É um reflexo condicionado de uma sociedade que só enxerga corpos trans em duas situações: hipersexualizados no Carnaval ou jogados no asfalto nas páginas policiais. A invisibilidade cotidiana (onde estão as gerentes de banco trans? As pediatras trans?) é quebrada apenas pelo espetáculo do horror.

Vamos aos fatos, sem a maquiagem do sensacionalismo. Compare como a mídia trata casos idênticos dependendo de quem segura a faca:

Perfil do AgressorManchete TípicaA Mensagem Implícita
Homem Cisgênero"Empresário mata esposa em condomínio de luxo"O sujeito é definido por sua profissão ou classe. É um "caso isolado".
Mulher Trans"Travesti/Mulher Trans mata companheira"O sujeito é definido por sua genitália/identidade. É um "comportamento de grupo".
Mulher Cisgênero"Mulher mata marido após briga"Muitas vezes enquadrada como legítima defesa ou surto.

Percebe a manipulação? Ao enfatizar o "Trans", o jornalista (ou o algoritmo sedento por tráfego) aciona o gatilho da transfobia latente no leitor. Transforma-se um caso de violência doméstica — que é uma praga sistêmica e deve ser combatida independentemente de quem a pratica — em uma validação de estigmas.

O que essa manchete esconde é ainda mais perverso: a violência intracomunitária. Relacionamentos LGBTQIA+ não são imunes a abusos. O ciúme, o controle e a agressão não têm orientação sexual ou identidade de gênero exclusiva. Mas quando tratamos o crime como uma aberração ligada ao fato de ser trans, deixamos de discutir a raiz do problema: a cultura de posse e violência que permeia todas as relações, inclusive as nossas.

E aqui vai a pílula difícil de engolir: usar esse crime para deslegitimar a identidade trans é tão lógico quanto usar um crime cometido por um homem branco para pedir o fim dos homens brancos. Não faz sentido, certo? Então por que aceitamos isso com tanta facilidade quando o alvo é marginalizado?

A violência precisa ser punida. O assassinato é inaceitável. Mas enquanto as manchetes servirem para demonizar uma população que já é a que mais morre no país (o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, caso você tenha esquecido), não estamos informando. Estamos apenas distribuindo tochas para o linchamento.

JC
Jennifer ClarkJournalist

Journalist specializing in Society. Passionate about analyzing current trends.