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O Milagre Carvoeiro: Por que o Criciúma é a anomalia mais fascinante da Série A

Esqueça as cifras bilionárias das SAFs da moda. O verdadeiro fenômeno mora no Heriberto Hülse, onde estabilidade técnica e o carisma improvável de Bolasie criaram um bunker impenetrável.

DM
David MillerJournalist
January 16, 2026 at 12:05 AM3 min read
O Milagre Carvoeiro: Por que o Criciúma é a anomalia mais fascinante da Série A

Há um cheiro específico nas noites de quarta-feira em Santa Catarina. Não é apenas a maresia que sobe do litoral ou a fumaça dos sinalizadores; é o cheiro de história sendo reescrita à base de suor e carvão. Quem entra no estádio Heriberto Hülse hoje sente uma eletricidade estática que não deveria existir para um time com um orçamento que faria os executivos do Flamengo rirem (nervosamente, é claro).

A ascensão do Criciúma não é um conto de fadas da Disney. É um drama operário.

Imagine a cena: 2021, o time estava atolado na Série C, flertando com o esquecimento. Corta para 2024. O Tigre não apenas voltou à elite, mas se transformou na pedra no sapato que nenhum gigante quer encontrar. E tudo isso sem vender a alma para um conglomerado estrangeiro sem rosto.

“No futebol moderno, a paciência é uma moeda mais rara que o talento. O Criciúma apostou no tempo, e o tempo pagou dividendos.”

O segredo? Chama-se Cláudio Tencati. Em um país onde técnicos duram menos que um pote de maionese fora da geladeira, manter um treinador por mais de três anos é praticamente um ato de rebeldia contracultural. Tencati construiu um sistema, não um time de aluguel. Os jogadores sabem onde pisar, para onde correr e, principalmente, por quem correm.

A Rota da Ascensão

Para entender o tamanho do salto, precisamos olhar para os degraus que foram subidos enquanto ninguém olhava.

TemporadaStatusO que ninguém viu
2021Série C (Acesso)Reestruturação silenciosa da base financeira.
2022Série B (Meio de Tabela)Manutenção da comissão técnica contra a pressão popular.
2023Série B (Acesso à Elite)Campanha sólida como mandante (o Fator Hülse).
2024Série A (Competitivo)Marketing agressivo + contratações cirúrgicas.

O Efeito Bolasie (Ou: O Surrealismo Mágico)

E então, temos o elefante — ou melhor, o leopardo — na sala. A contratação de Yannick Bolasie parecia, inicialmente, um delírio de febre de algum diretor de marketing. Um ex-astro da Premier League, conhecido por dribles elásticos no Crystal Palace, desembarcando no sul do Brasil? Parecia roteiro de filme B.

Mas funcionou. Ah, como funcionou.

Bolasie não veio para passar férias. Ele entendeu a cultura local. Ver o congolês comendo churrasco e interagindo com a torcida carvoeira criou uma simbiose que o dinheiro do petróleo não compra. Ele trouxe os holofotes, sim, mas também trouxe uma imprevisibilidade tática que deixa as defesas adversárias paranoicas. O Criciúma deixou de ser o "jogo fácil" da tabela para se tornar o "jogo chato" onde pontos são perdidos.

O que isso muda de verdade? O Tigre prova que o modelo associativo, quando gerido com sanidade fiscal e inteligência esportiva, ainda respira. Eles não estão competindo para ser o Manchester City; estão competindo para ser o Criciúma mais eficiente possível. E num campeonato de egos inflados e dívidas astronômicas, ser organizado é a maior das revoluções.

DM
David MillerJournalist

Journalist specializing in Sport. Passionate about analyzing current trends.