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O mito da nação adormecida: O 'Acorda Brasil' como narcótico político

Do 'Gigante' de 2013 à guerra de narrativas no WhatsApp, o imperativo de despertar tornou-se a ferramenta mais eficaz para manter o país em transe. Analisamos a semântica de um grito que, ironicamente, nos impede de sonhar.

JS
James SterlingJournalist
January 24, 2026 at 02:01 PM3 min read
O mito da nação adormecida: O 'Acorda Brasil' como narcótico político

Há uma ficção conveniente que repetimos exaustivamente há mais de uma década: a de que o Brasil estava dormindo. A imagem do "Gigante" que desperta, nascida no asfalto quente de junho de 2013, transformou-se no mito fundacional da nossa polarização atual. Mas sejamos honestos (e brutalmente pragmáticos): o Brasil nunca dormiu. Ele sofria de insônia.

O uso do imperativo "Acorda Brasil" deixou de ser um chamado à consciência cívica para se tornar um dogma de exclusão. Se você precisa acordar alguém, pressupõe-se que você — o iluminado, o detentor da verdade — já está de olhos bem abertos, enquanto o outro (o vizinho, o tio do pavê, o eleitor do partido oposto) vegeta em um estado de letargia zumbi.

ContextoSignificado para a DireitaSignificado para a EsquerdaRealidade Prática
Origem (2013)Fim da corrupção sistêmica e do aparelhamento.Luta por direitos sociais e transporte.Caos interpretativo e fragmentação.
Auge (2018-2022)Acordar para a "ameaça comunista" e valores morais.Acordar para o "fascismo" e a perda de direitos.Ruptura do tecido social familiar.
AtualidadeResistência contra o "sistema".Vigilância contra o golpismo.Paralisia decisória pelo excesso de alerta.

A "Red Pill" Tropical

A apropriação do termo flerta perigosamente com o conceito de gematria conspiratória e a pílula vermelha de Matrix. "Acordar", no léxico da polarização digital, não significa entender a complexidade da reforma tributária ou as nuances da política externa no Itamaraty. Significa aceitar um pacote fechado de crenças.

Você não acorda para a realidade; você acorda para uma realidade paralela onde cada notificação no celular confirma seus vieses. É o despertar para a câmara de eco. O ceticismo saudável morreu. Se os números do IBGE dizem uma coisa e o influenciador "que acordou" diz outra, a realidade factual é descartada como parte da "Matrix" que tenta manter o povo dormindo.

"O estado de alerta permanente não cria cidadãos conscientes. Cria soldados exaustos lutando contra moinhos de vento enquanto a elite política realoca o orçamento."

O Lucro da Insônia

Quem ganha com um país que não dorme? As plataformas, certamente. O algoritmo ama a ansiedade. Um cidadão tranquilo, que confia minimamente nas instituições e dorme oito horas por noite, não compartilha fake news às três da manhã. O "Acorda Brasil" é, antes de tudo, um modelo de negócios.

A ironia suprema reside no fato de que, ao exigirmos que o outro "acorde", estamos admitindo nossa própria incapacidade de diálogo. Não se conversa com quem dorme. Grita-se. E neste gritaria ensurdecedora, ninguém percebe que o gigante não apenas acordou, como está tendo um ataque de pânico em praça pública. Talvez o ato mais revolucionário hoje não seja gritar para acordar, mas oferecer um pouco de silêncio para que possamos, finalmente, pensar.

JS
James SterlingJournalist

Journalist specializing in Politics. Passionate about analyzing current trends.