Wuthering Heights: A fraude romântica que moldou nossa obsessão por sociopatas
Esqueça o romance gótico idealizado. A obra-prima de Emily Brontë é um alerta sobre abuso que a cultura pop, convenientemente, decidiu ignorar para vender fantasias tóxicas.

Há uma mentira fundamental que nos contam desde a adolescência, geralmente acompanhada de capas de livros em tons pastéis ou pôsteres de cinema sombrios. A mentira é a seguinte: O Morro dos Ventos Uivantes é a maior história de amor de todos os tempos. Permita-me discordar (e com veemência). Chamar a dinâmica entre Heathcliff e Catherine de "romance" é como chamar um acidente nuclear de "espetáculo de luzes". É tecnicamente brilhante, mas você não quer chegar perto.
Emily Brontë, isolada em seu presbitério em Yorkshire, não escreveu um manual de instruções para o amor eterno; ela redigiu uma autópsia de duas almas podres destruindo tudo ao seu redor. No entanto, Hollywood e a indústria literária jovem-adulta (YA) continuam a exumar esse cadáver, maquiar suas cicatrizes e vendê-lo como o auge da paixão. Por quê?
“Ele é mais eu do que eu mesma. Seja do que for que as nossas almas são feitas, a dele e a minha são iguais.” — Catherine Earnshaw.
Lido fora de contexto, parece lindo. No contexto? É a confissão de um narcisismo compartilhado que aniquila duas famílias inteiras.
A mais recente notícia de que Emerald Fennell (de Saltburn) está adaptando a obra novamente, com Jacob Elordi e Margot Robbie, reacende o debate. Será que teremos, finalmente, a coragem de retratar Heathcliff como o vilão vingativo que ele é? Ou cairemos novamente na armadilha do "bad boy incompreendido"? A cultura pop tem um histórico vergonhoso de higienizar o abuso emocional sob a desculpa da "intensidade".
| O Arquétipo Original (Heathcliff) | A Cópia Pop Higienizada |
|---|---|
| Mata animais, bate na esposa, desenterra o cadáver da amada. | Brilha no sol, observa você dormir (Edward Cullen), quebra móveis "por amor" (Hardin Scott). |
| Motivação: Vingança pura e destruição geracional. | Motivação: "Proteger" a protagonista (geralmente controlando-a). |
O problema não é o livro de 1847. O problema é a nossa leitura seletiva em 2024. Criamos uma linha direta de descendência entre a charneca inglesa e as fanfics do Wattpad. Crepúsculo, After, Fifty Shades... todos bebem dessa fonte envenenada onde o controle coercitivo é rebatizado de "proteção" e a instabilidade emocional é vista como profundidade de caráter.
Quando romantizamos a toxicidade de Heathcliff, validamos a ideia de que o sofrimento é um pré-requisito para o amor verdadeiro. Se não dói, se não é destrutivo, se não isola você do mundo, "não é paixão". É uma pedagogia do trauma disfarçada de entretenimento.
Talvez seja hora de parar de procurar o próximo Heathcliff nas livrarias e começar a reconhecê-lo nos consultórios de terapia (onde ele deveria estar). Emily Brontë sabia exatamente o monstro que estava criando. O resto de nós é que parece ter esquecido.


