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A Crise da Gávea: Por que vencer nunca é suficiente no Flamengo?

Esqueça a lógica cartesiana. No Rio de Janeiro, o rubro-negro não é apenas um time, é uma neurose coletiva onde o empate é tragédia e a vitória, mera obrigação.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
25 janvier 2026 à 20:014 min de lecture
A Crise da Gávea: Por que vencer nunca é suficiente no Flamengo?

Era uma manhã de segunda-feira cinzenta no Leblon e eu pedia um café. O garçom, um senhor de bigode farto e olheiras profundas, serviu a xícara com uma violência contida. O Flamengo havia vencido no dia anterior. Dois a zero. Um placar seguro, burocrático, eficiente. Mas o humor do meu amigo garçom sugeria um rebaixamento.

— Jogaram nada — resmungou ele, sem que eu perguntasse. — Ganhou, mas não convenceu. Se jogar assim na quarta, a gente cai.

Bem-vindos à psique rubro-negra. Este é o único lugar do mundo onde a vitória é recebida com desconfiança e o sucesso financeiro se tornou, paradoxalmente, o maior adversário do clube. Não estamos falando apenas de futebol aqui (seria reducionista demais); estamos falando de uma gestão de expectativas que beira o delirante.

"No Flamengo, a paz tem prazo de validade: ela dura exatamente até o próximo passe errado de um lateral."

A Maldição do Superávit

Houve um tempo, e não faz tanto assim, em que o torcedor do Flamengo se orgulhava da raça. Ganhar "na bacia das almas" era a assinatura da casa. O dinheiro era curto, os salários atrasavam, mas a mística compensava. O que acontece hoje? O clube se organizou. Fatura bilhões. Contrata jogadores que, em tese, deveriam estar na Europa.

E é exatamente aí que a armadilha se fecha.

Quando você tem o elenco mais caro do continente, a vitória deixa de ser uma conquista heroica para se tornar o "mínimo aceitável". O torcedor não vai ao Maracanã para ver se o time ganha. Ele vai para conferir se o investimento está sendo justificado. É uma relação de consumo brutal. O jogador não pode apenas jogar bem; ele precisa performar como um ativo de alto rendimento na bolsa de valores. Arrascaeta errou um passe? Crise. O técnico demorou dez minutos para substituir? Incompetente.

👀 O Ciclo Vicioso da Gávea (Clique para entender)

O ecossistema do Flamengo opera em um loop temporal fascinante e destrutivo:

  • Fase 1: A Esperança Messiânica. Chega um novo técnico (geralmente estrangeiro). A torcida promete apoio incondicional.
  • Fase 2: O Choque de Realidade. O time empata um jogo contra um time do Z4. O Twitter entra em colapso.
  • Fase 3: A Caça às Bruxas. A culpa é da diretoria? Do departamento médico? Do gramado? Não importa, alguém precisa cair.
  • Fase 4: O Aerofla. Protestos no aeroporto ou no CT. O clima fica insustentável.
  • Fase 5: A Demissão e o Reinício. O técnico cai, um interino assume, ganha três jogos e a esperança volta (retorne à Fase 1).

A Máquina de Moer Reputações

Olhe para o banco de reservas. Nos últimos anos, a área técnica do Maracanã viu passar nomes consagrados, promessas modernas e velhos conhecidos. Quase todos saíram chamuscados. Por quê? Porque a cobrança no Flamengo ignora o tempo fisiológico necessário para construir qualquer coisa.

O ambiente político do clube (uma Game of Thrones tropical, mas com mais gritaria e menos dragões) vaza para o vestiário. Conselheiros, influencers, organizadas e a "FlaTwitter" formam um tribunal constante. Se o time vence por 1 a 0, a crítica é sobre a falta de espetáculo. Se dá espetáculo mas toma dois gols, a crítica é sobre a defesa frágil.

Essa pressão constante cria atletas blindados ou quebrados. Não há meio-termo. Ou você desenvolve uma casca grossa capaz de suportar a vaia de 60 mil pessoas após um erro bobo, ou você pede para ser negociado. O Flamengo hoje não é para amadores, e talvez nem para profissionais sensatos. É para quem tem estômago de aço.

O resultado? Um clube que é gigante financeiramente, colossal em torcida, mas que vive emocionalmente na corda bamba, onde a distância entre o "Rumo a Tóquio" e o "Fora Todo Mundo" é de apenas 90 minutos.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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