Al-Ittihad x Al-Feiha: Quando os Bilhões Encontram a Retranca do Deserto
Não é apenas um jogo, é um teste de estresse para o projeto saudita. O glamour das superestrelas colide com a realidade áspera de um time que se recusa a ser coadjuvante no show alheio.

Imagine o cenário: o ar está denso, carregado com aquela umidade sufocante típica de Jeddah, que gruda a camisa no corpo antes mesmo do apito inicial. Nas arquibancadas, o rugido dos Tigres do Al-Ittihad tenta intimidar. Mas do outro lado, há onze homens vestidos de laranja e azul que não leram o roteiro. Eles não estão ali para pedir autógrafos a Karim Benzema ou N'Golo Kanté. Eles estão ali para estragar a festa.
O confronto entre Al-Ittihad e Al-Feiha é a ilustração perfeita do paradoxo atual da Saudi Pro League. De um lado, o projeto faraônico, o braço armado do Fundo de Investimento Público (PIF), a vitrine global. Do outro, o Al-Feiha, um clube modesto da cidade de Al Majma'ah, que opera com uma fração do orçamento e uma disciplina tática que beira o masoquismo.
"O futebol não se joga com a carteira, se joga com a alma e, às vezes, com um ônibus estacionado na frente da pequena área."
Para o observador casual (aquele que só vê os highlights no Instagram), este jogo deveria ser um passeio. Mas quem acompanha a liga sabe que o Al-Feiha é o "estraga-prazeres" oficial do reino. Eles transformam o campo em um pântano tático onde o talento individual muitas vezes se afoga na frustração.
David vs. Golias (Versão Petrodólar)
Para entender o abismo que separa as duas realidades, basta olhar para o que está em jogo fora das quatro linhas. A disparidade não é apenas um detalhe; é a narrativa central.
| Critério | Al-Ittihad (Os Tigres) | Al-Feiha (O Moinho) |
|---|---|---|
| Estratégia | Domínio, posse e estrelas globais | Contra-ataque letal e bloqueio baixo |
| Pressão | Obrigação de vencer e convencer | Zero responsabilidade, pura sobrevivência |
| Fator X | A genialidade de Benzema/Kanté | A paciência infinita do coletivo |
E aqui reside a beleza cruel deste duelo. Quando o Al-Ittihad falha em quebrar a barreira defensiva nos primeiros 20 minutos, a ansiedade começa a se infiltrar. Você vê nos gestos. O levantar de braços de um atacante milionário reclamando de um passe errado. O silêncio repentino da torcida quando o Al-Feiha escapa em velocidade (geralmente com Sakala ou seus pontas rápidos).
Isso levanta uma questão que poucos ousam fazer nos corredores acarpetados de Riad: o projeto Vision 2030 está preparado para a teimosia do futebol real? Comprar os melhores jogadores do mundo garante audiência, mas não garante a submissão dos adversários menores. E é exatamente essa resistência que dá alguma legitimidade ao campeonato. Se o Al-Ittihad vencesse todos os jogos por 5 a 0, a liga seria uma exibição de circo, não uma competição esportiva.
O Al-Feiha, com sua postura defensiva rígida e muitas vezes irritante, presta um serviço essencial ao futebol saudita: lembra aos gigantes que o dinheiro compra a Ferrari, mas não ensina a dirigir na tempestade de areia.
Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.

