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Bia Haddad e a solidão de carregar um país inteiro na bolsa de raquetes

Ela não joga apenas contra a adversária do outro lado da rede. Bia enfrenta a memória seletiva de uma nação que esqueceu o quão brutal é o circuito WTA.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
7 février 2026 à 11:013 min de lecture
Bia Haddad e a solidão de carregar um país inteiro na bolsa de raquetes

Imaginem o silêncio. Aquele segundo exato antes de a bola subir para o saque no saibro parisiense ou no piso duro de Nova York. Para a maioria dos tenistas, é o momento de foco absoluto. Para Beatriz Haddad Maia, esse silêncio é habitado. Ele é preenchido por 200 milhões de técnicos de sofá, pela sombra gigantesca de um certo manezinho da ilha e pela pressão de um sistema que produz talentos por acidente, não por projeto.

A história de Bia não é sobre forehands devastadores (embora ela os tenha). É sobre a teimosia de existir no topo.

"O tênis brasileiro é um cemitério de promessas onde Bia decidiu plantar um jardim de concreto."

A gente costuma olhar para o placar final e esquecer a anatomia do desastre que é ser tenista profissional vindo do Brasil. Viajar com o real desvalorizado, sem a estrutura das federações francesas ou americanas, é começar o jogo perdendo de 15-0. Bia não é apenas uma atleta de elite; ela é uma anomalia estatística. Uma falha na Matrix do esporte nacional que insiste em dar certo.

O fantasma que nunca vai embora

Há uma crueldade velada na forma como consumimos tênis no Brasil. Fomos mal acostumados. Gustavo Kuerten não foi apenas um campeão; ele foi um cometa que distorceu nossa percepção de realidade. Esperamos que Bia sorria como Guga enquanto tritura adversárias, ignorando que o circuito WTA atual é uma selva de potência física muito mais impiedosa do que a era romântica dos anos 90.

Comparativo de ContextoEra Guga (Anos 90/00)Era Bia (Atualidade)
Estilo de JogoTalento, toque, criatividadeForça física, velocidade, mental de aço
MídiaTV Aberta, comoção nacionalStreaming, nicho, cobrança de redes sociais
ApoioO início do marketing esportivoProfissionalismo individual (Eu-Equipe)

Bia joga partidas de três, quatro horas. Ela sangra em quadra. Literalmente, às vezes. E quando perde? O tribunal da internet não perdoa. "Amarela", dizem os que nunca seguraram uma raquete sob 40 graus. A verdade? A resiliência dela em voltar de lesões graves e suspensões é o verdadeiro troféu. O ranking é consequência.

A solidão da exceção

O que poucos discutem é o vácuo ao redor dela. Onde está a "Geração Bia"? Enquanto a Polônia capitaliza sobre Iga Swiatek e a Itália vive um renascimento no tênis masculino, o Brasil segue dependendo de esforços familiares isolados. Bia Haddad Maia caminha sozinha num deserto de infraestrutura.

Cada vitória dela não é um triunfo do "tênis brasileiro". É um triunfo apesar do tênis brasileiro. Ela carrega o peso de provar, semana após semana, que é possível furar a bolha, mesmo quando o passaporte joga contra. Talvez, o maior legado dela não sejam os troféus de Grand Slam que exigimos, mas a normalização da luta. Ensinar ao público que cair na segunda rodada não é vergonha; é parte do processo de quem está na arena, e não na arquibancada.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.