Sport

Filipe Luís: A metamorfose do enxadrista no banco do Flamengo

Esqueça o lateral elegante. O Flamengo agora é regido pela obsessão de um homem que transformou o luto da aposentadoria na voracidade de um estrategista precoce.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
26 janvier 2026 à 20:013 min de lecture
Filipe Luís: A metamorfose do enxadrista no banco do Flamengo

Lembro-me distintamente do cheiro de chuva e despedida que pairava sobre o Maracanã em dezembro de 2023. Filipe Luís, com os olhos marejados, acenava para a Nação, encerrando um ciclo de elegância rara na lateral esquerda. A maioria dos jogadores, nesse momento, sonha com praias em Ibiza ou comentar jogos na TV. Filipe não. (Aliás, descansar nunca foi seu forte). Naquela tarde, enquanto muitos viam o fim, ele já estava calculando vetores de pressão e saídas de bola em três tempos.

A transição de ídolo para comandante é um campo minado onde lendas como Rogério Ceni ou Lampard já perderam pernas. Mas o caso do "Filipinho" desafia a lógica habitual do boleiro brasileiro.

“Eu não quero ser apenas um ex-jogador que motiva. Eu quero dominar o caos.” – A filosofia não dita, mas gritada em cada treino do novo Mister.

O que vimos na conquista da Copa do Brasil de 2024 e na sequência do trabalho não foi sorte de principiante. Foi a aplicação prática de anos anotando em caderninhos enquanto Simeone gritava ou Jorge Jesus gesticulava. Filipe Luís pulou a etapa do "estágio remunerado" na equipe principal para sujar os sapatos na base, subindo degrau por degrau em velocidade recorde.

O Dilema do Vestiário: Chefe ou "Parça"?

Aqui reside a grande aposta (e o maior perigo). Como dar ordens a quem, até ontem, dividia a mesa de pôquer na concentração? A resposta de Filipe foi cirúrgica: a competência técnica anula a intimidade. Quando ele explica por que um movimento deve ser feito, e esse movimento resulta em gol, o "parça" desaparece. Fica a autoridade intelectual. Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta não obedecem apenas ao ex-capitão; obedecem a quem entende o jogo melhor que eles.

👀 Como ele "domou" o caso Gabigol?
Ao contrário de Tite, que isolou o ídolo, Filipe trouxe Gabriel para perto, mas com uma condição clara: a hierarquia agora é tática, não histórica. Ele usou a relação pessoal para extrair o máximo nos momentos decisivos (como na final contra o Atlético-MG), gerenciando o ego do camisa 99 com uma franqueza que só um amigo pode ter, mas com a frieza que um técnico precisa ter.

O crepúsculo do Filipe Luís jogador foi, na verdade, a alvorada mais promissora do Flamengo pós-2019. Enquanto o clube gastava milhões procurando o "novo Jorge Jesus" na Europa, a solução estava estudando na Gávea, vestindo o agasalho do clube e dormindo quatro horas por noite.

Não se enganem. A renovação do panteão rubro-negro não passa pela contratação de estrelas galácticas para o ataque, mas pela consolidação de uma mente que entende o DNA do clube não como um peso, mas como um manual de instruções.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.