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Flamengo e Inter: A Farsa do Equilíbrio e o Abismo Invisível

Eles vendem paixão e rivalidade histórica. Nós abrimos as planilhas e encontramos um monopólio disfarçado. Por que insistimos em chamar de 'competição' o que está virando um massacre financeiro?

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
4 février 2026 à 17:014 min de lecture
Flamengo e Inter: A Farsa do Equilíbrio e o Abismo Invisível

Há uma mentira confortável que nos contam a cada véspera de Flamengo e Internacional. A narrativa oficial, impulsionada pelos detentores dos direitos de transmissão (que precisam desesperadamente manter a audiência), é a de um choque de titãs, uma rivalidade interestadual forjada na polêmica de 2020 e na tradição dos anos 70. Bobagem. O que vemos em campo não é apenas futebol; é a exposição crua de um sistema desenhado para perpetuar uma hegemonia.

Não se deixe enganar pelos gritos da torcida ou pela mística do Beira-Rio (ou do Maracanã). Se você desligar o som da TV e olhar para os números, o que se desenha é um cenário de Davi contra Golias, onde Davi teve as pernas amarradas pelo regulamento e Golias recebeu injeções de esteroides financeiros por uma década.

A Matemática do Abismo

Vamos parar de romantizar a 'raça gaúcha' ou o 'talento carioca' e olhar para o que realmente decide campeonatos longos: o fluxo de caixa. O desequilíbrio não é um acidente; é um projeto. Enquanto o Flamengo opera com receitas de gigante europeu de médio porte, o Inter — e a maioria dos outros grandes — precisa vender o almoço para pagar o jantar, rezando para que uma venda da base salve o balancete anual.

Observe a disparidade estrutural que a mídia tradicional prefere ignorar para não estragar o suspense:

Indicador de PoderFlamengo (O Modelo)Internacional (A Resistência)
Receita Recorrente (Média)R$ 1.2 Bilhão+~R$ 500 Milhões
Capacidade de InvestimentoAgressiva (Sem vender atletas)Dependente de Vendas
Influência Política (Bastidores)Dominante (Eixo Rio)Reativa

Vocês percebem a gravidade disso? O Internacional não está jogando apenas contra onze homens de vermelho e preto. Está jogando contra uma máquina que pode errar três contratações milionárias e ainda assim trazer um craque da seleção uruguaia na janela seguinte. O Inter, se errar um contrato longo, compromete duas temporadas. É uma corrida de Fórmula 1 onde um carro troca de pneus em 2 segundos e o outro precisa parar para abastecer com gasolina comum.

O Fantasma de 2020 e a Paranoia Justificada

É impossível falar deste confronto sem citar o campeonato de 2020 (encerrado em 2021). Aquele impedimento de Edenilson, por mais ajustado que fosse, tornou-se o símbolo de algo maior. Não foi apenas um erro ou acerto de arbitragem; foi a confirmação, para o sul do país, de que o 'sistema' (leia-se CBF e o entorno midiático do Rio) sempre penderá para o lado que gera mais engajamento nacional.

"O futebol brasileiro não é jogado no campo, é jogado nas linhas finas dos regulamentos e nas reuniões da CBF onde o café é servido frio para quem não é do Eixo."

A rivalidade Flamengo x Inter hoje é o choque entre a arrogância do novo dinheiro e o orgulho ferido da tradição. O Flamengo entra em campo com a certeza de que o título é um direito divino adquirido por balanços financeiros; o Inter entra com a faca nos dentes, sabendo que precisa vencer o adversário, o relógio e a 'interpretação' do VAR. Essa tensão cria jogos espetaculares? Sim. Mas não nos iludamos achando que o campo é plano. Ele é inclinado.

O Que Ninguém Diz

O verdadeiro jogo acontece agora, com a formação das Ligas (Libra vs LFU). Enquanto discutimos se foi pênalti ou não, o Flamengo costura acordos para garantir que essa vantagem da tabela acima se perpetue pelos próximos 50 anos. O Internacional, ao tentar liderar blocos alternativos, não está apenas brigando por dinheiro; está brigando pela própria relevância competitiva.

Portanto, quando a bola rolar, aprecie o espetáculo. Mas mantenha o ceticismo ligado. O placar final pode dizer uma coisa, mas o extrato bancário já declarou o vencedor muito antes do apito inicial. E a tendência, infelizmente para quem ama a imprevisibilidade, é que o abismo só aumente. Quem realmente ganha com um campeonato de um time só?

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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