O Excel Sorri, a Rua Sangra: A Grande Ilusão do Milagre Argentino
Enquanto Wall Street brinda o superávit fiscal de Milei com champanhe, as panelas vazias na periferia de Buenos Aires emitem um som que os gráficos macroeconômicos tentam abafar.

Há uma euforia quase tóxica nos corredores financeiros globais quando se fala da Argentina hoje. Os números, frios e distantes da realidade da carne e osso, são impressionantes: superávit fiscal alcançado em tempo recorde, a inflação mensal desacelerando de um galope insano para um trote controlável e o FMI sorrindo como um credor que finalmente vê a cor do dinheiro. Mas vamos pausar os aplausos por um segundo? Se você olhar além da planilha de Excel da Casa Rosada, o que se vê não é um milagre. É uma autópsia ao vivo de uma classe média em extinção.
O dilema argentino atual não é apenas sobre números versus pessoas; é sobre a sustentabilidade de uma ficção. Javier Milei, com sua estética de astro do rock e retórica de profeta do livre mercado, vendeu a ideia de que o ajuste cairia sobre a "casta" política. Spoiler: a conta chegou na caixa de correio da dona Maria e do pequeno comerciante.
“Não existe mágica na economia, apenas transferências brutais de riqueza. O que chamam de 'sucesso fiscal' hoje é, na prática, a suspensão do pagamento de quem não tem como se defender: os aposentados.”
A estratégia utilizada não foi apenas a famosa "motosserra" (cortes de gastos), mas a cruel "licuadora" (o liquidificador inflacionário). O governo permitiu que a inflação diluísse os gastos públicos reais — salários, pensões, verbas universitárias — enquanto segurava as receitas. O resultado? Um superávit técnico construído sobre o empobrecimento súbito de metade da população. É fácil economizar no jantar se você decidir que sua família não vai comer.
A Dissonância Cognitiva
O clamor popular por um "novo caminho" é real, mas é perigosamente ambíguo. Uma parte da sociedade, exausta de décadas de peronismo ineficiente e corrupção endêmica, aceita o sofrimento atual como uma quimioterapia necessária. "Tem que doer para curar", repetem, como um mantra de autoajuda econômica. A outra parte, no entanto, já não tem gordura para queimar.
| Narrativa Oficial (O Gráfico) | Realidade das Ruas (O Bolso) |
|---|---|
| Inflação em queda técnica | Custo de vida em dólar dispara |
| Déficit Zero Inegociável | Recessão profunda e queda no consumo |
| Acumulação de Reservas | PMEs fechando por falta de vendas |
A Argentina tornou-se cara em dólares, mas com salários do terceiro mundo. E aqui reside o verdadeiro perigo para o projeto libertário: a paciência social não é elástica. O clamor por um novo caminho pode rapidamente se transformar em um grito por sobrevivência básica.
O que poucos analistas de Wall Street admitem (talvez porque nunca precisaram pegar um trem na estação Constitución às 6 da manhã) é que a austeridade radical sem um horizonte de crescimento produtivo é apenas um torniquete. Estanca o sangue, sim. Mas se deixado por muito tempo, gangrena o membro. A Argentina está flertando com esse limite necrótico. Se o rebote econômico em forma de "V" não chegar logo — e estou falando de emprego real, não de valorização de títulos da dívida —, o clamor popular deixará de ser um debate político para se tornar um estrondo nas ruas. E a história argentina ensina que, quando a rua fala, presidentes costumam sair de helicóptero.
L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.


