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O Paradoxo Endrick: Quando a marca engole o menino (ou vice-versa)

Esqueçam os gols por um minuto. O que estamos testemunhando com a joia do Real Madrid não é apenas futebol, é um experimento sociológico transmitido ao vivo no Instagram.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
25 janvier 2026 à 17:013 min de lecture
O Paradoxo Endrick: Quando a marca engole o menino (ou vice-versa)

Há uma história que rola nos corredores da Academia de Futebol do Palmeiras, daquelas que viram folclore antes mesmo do protagonista tirar a carteira de motorista. Dizem que, aos 11 anos, Endrick já negociava sua realidade como quem joga xadrez contra o destino. Ele prometeu ao pai, Douglas, que tiraria a família da pobreza através do futebol. Clichê? Talvez. Mas a velocidade com que ele cumpriu a promessa transformou o conto de fadas em um case brutal de aceleração industrial.

Não estamos falando apenas de um atacante com coxas de fisiculturista e explosão de velocista. Estamos falando da 'Corporação Endrick'.

"O futebol moderno não perdoa a inocência. Endrick não teve permissão para ser amador, nem quando jogava no sub-13."

A transição de Taguatinga para o Santiago Bernabéu não foi uma caminhada; foi um teletransporte quântico. E aqui reside o problema (e o fascínio). Ao contrário de Neymar, que teve anos de "Menino da Vila" para errar, dançar e criar polêmicas adolescentes no Brasil, Endrick aterrissou na Europa já formatado. Terno bem cortado, discurso polido, referências históricas que fariam um bibliotecário corar.

👀 Por que a obsessão com Bobby Charlton?
A internet não perdoou quando Endrick citou a lenda inglesa como ídolo. Meme instantâneo? Sim. Mas analise friamente: é uma jogada de mestre de personal branding. Ao se vincular a lendas "clássicas" e se distanciar da estética "boleiro ostentação", Endrick sinaliza ao mercado europeu (e aos patrocinadores conservadores) que ele é um produto seguro, maduro e confiável. É calculado? Provavelmente. Funciona? O contrato com a New Balance diz que sim.

O Dilema do Hype

O perigo real não é ele falhar em campo — talento, ele tem de sobra. O risco é a saturação da imagem antes da consolidação esportiva. Vemos um garoto de 18 anos carregando o peso de ser o "Messias" pós-Neymar, enquanto tenta se encaixar numa hierarquia galáctica onde Vinicius Jr. e Mbappé já ocupam o trono.

O que ninguém te conta sobre essa ascensão meteórica é o custo do silêncio. Para ser esse produto perfeito, o "anti-herói" do caos, Endrick precisa suprimir a espontaneidade que define o futebol brasileiro. Ele joga como um adulto e fala como um executivo de RH. A máquina de hype precisa de combustível constante, e se os gols secarem por três jogos, a mesma imprensa que o chama de "novo Pelé" estará pronta para rotulá-lo como "novo Gabigol na Europa".

No fim das contas, a pergunta que fica não é quantos Bolas de Ouro ele vai ganhar. É se, no meio de contratos milionários e expectativas de uma nação carente de ídolos, sobrará algum espaço para o Endrick, o menino que só queria ajudar o pai, simplesmente jogar bola.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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