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O Paraibano não é para amadores: quando a fé na camisa desafia a lógica financeira

Esqueça o glamour das arenas climatizadas. No Sertão e no Litoral, o futebol pulsa em ritmo de sobrevivência, onde cada vitória vale o salário do mês seguinte.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
22 janvier 2026 à 02:013 min de lecture
O Paraibano não é para amadores: quando a fé na camisa desafia a lógica financeira

Imagine o calor de Sousa, no alto Sertão. São três da tarde, o sol castiga o concreto do Marizão e, mesmo assim, a arquibancada ruge. Não há ar-condicionado nos camarotes (se é que podemos chamar assim), nem gramado importado da Europa. O que existe ali, pulsando sob o calor de trinta e muitos graus, é a essência crua do que o futebol brasileiro costumava ser antes de se tornar um produto de exportação asséptico.

O Campeonato Paraibano é, acima de tudo, um ato de resistência teimosa.

Para entender o abismo, precisamos sair da bolha do eixo Rio-São Paulo. Enquanto clubes da Série A discutem direitos de transmissão na casa dos centenas de milhões, times como o Treze, o Campinense (o gigante ferido) e o Botafogo-PB operam em uma realidade de engenharia financeira que faria qualquer CEO de Wall Street suar frio. Aqui, a folha salarial não é um detalhe contábil; é o almoço da família dos jogadores.

A armadilha do calendário curto

O maior adversário no Paraibano não é o rival histórico no Clássico dos Maiorais. É o calendário. Para a vasta maioria dos clubes fora da elite nacional, o ano acaba em abril. O que acontece com o roupeiro, o massagista e o lateral-direito depois da final estadual? O desemprego ou a migração para o futebol de várzea (que, ironicamente, às vezes paga melhor e em dia).

RealidadeFutebol de Elite (Série A)Futebol Raiz (Estadual PB)
Contratos3 a 5 anos (Multimilionários)3 a 4 meses (Salário Mínimo + Bicho)
Principal ReceitaTV e Patrocínios MasterBilheteria e Mecenas Locais
ObjetivoLibertadores / TítuloCalendário para o ano seguinte (Série D)

Essa disparidade cria um fenômeno curioso: a paixão regional se torna o único combustível. Quando o Sousa derruba um gigante da Copa do Brasil (quem não se lembra daquele jogo contra o Cruzeiro?), não é tática pura. É a fome. É a necessidade visceral de garantir a cota de premiação que pagará as contas até dezembro.

“No futebol paraibano, a gente não joga só pela taça. A gente joga pelo direito de existir na próxima temporada.” — Desabafo comum nos vestiários de times sem divisão nacional.

O laboratório de identidades

Mas por que insistir? Por que o torcedor do Nacional de Patos veste a camisa amarela e enfrenta estradas esburacadas? Porque, ao contrário das grandes franquias globais, esses clubes são extensões da identidade local. O time carrega o sotaque, as dores e o orgulho da cidade.

O futebol moderno tenta vender entretenimento. O Campeonato Paraibano vende pertencimento. É imperfeito? Terrivelmente. Os gramados às vezes deixam a desejar e a arbitragem é, digamos, folclórica em momentos decisivos. Mas é ali que o futebol brasileiro respira sem aparelhos.

Se quisermos entender para onde vai o nosso esporte, não devemos olhar apenas para as contratações milionárias do Flamengo ou do Palmeiras. Devemos olhar para Campina Grande e João Pessoa. Se a chama apagar ali, onde a paixão subsiste com quase zero retorno financeiro, o futebol brasileiro terá finalmente morrido para dar lugar a um mero negócio de entretenimento.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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