Olympique de Marseille: Quando o Excel Tenta Domar o Vélodrome
Esqueça as táticas de quadro negro por um minuto. Em Marselha, o futebol não é jogado; é sentido, gritado e, às vezes, sofrido. Mas como gerir a paixão mais volátil da França com algoritmos frios?

Dizem que o vento Mistral, quando sopra em Marselha, é capaz de arrancar a sanidade de qualquer um que não tenha nascido com o sal do Mediterrâneo nas veias. Eu estava lá, numa daquelas noites elétricas no Boulevard Michelet, quando entendi o verdadeiro paradoxo. De um lado, via-se a fumaça azul dos sinalizadores subindo dos Virages, uma manifestação tribal, quase religiosa. Do outro, nos camarotes climatizados, tablets exibiam mapas de calor e índices de valorização de ativos.
Bem-vindos ao dilema existencial do Olympique de Marseille: uma instituição presa entre a mística de 1993 (a única Champions League francesa, nunca nos deixam esquecer) e a necessidade brutal de solvência financeira do século XXI.
“Marselha não é uma cidade para turistas do futebol. Aqui, a camisa pesa toneladas e o amor é uma forma de chantagem emocional aceitável.”
O homem no centro desse furacão não é um artilheiro, mas um presidente espanhol com ares de enxadrista. Pablo Longoria. Ele trouxe para a Canebière algo que o torcedor marselhês despreza e necessita em medidas iguais: a racionalidade fria do trading de jogadores. A ideia? Comprar barato, valorizar, vender caro. Repetir. É o modelo moderno, asséptico, eficiente.
Mas como você explica o ROI (Retorno sobre Investimento) para um ultra que tatuou o escudo do clube no peito? (Spoiler: você não explica, você reza para ganhar no domingo).
O Choque de Culturas
A modernização do OM não é apenas sobre trocar cadeiras no estádio ou lançar um aplicativo. É uma batalha pela alma do clube. A gestão atual tenta implementar uma estrutura corporativa em um lugar que sempre funcionou à base de gritos, paixão e, sejamos honestos, uma dose saudável de caos administrativo.
| Critério | OM "Raiz" (Era Tapie/Anos 90) | OM "Moderno" (Era Longoria/McCourt) |
|---|---|---|
| Motor | Emoção Pura e Carisma | Data Scouting e Plusvalia |
| Estabilidade | Inexistente (Montanha-russa) | Buscada, mas volátil (Rotatividade alta) |
| Objetivo | Glória imediata a qualquer custo | Sustentabilidade e Champions regular |
A chegada de Roberto De Zerbi foi o último capítulo dessa novela. Um tático obsessivo, moderno, amante da posse de bola, aterrissando no território do futebol de combate. A mistura é fascinante. O Vélodrome quer sangue e suor; De Zerbi oferece geometria e paciência. Pode funcionar? Talvez. Mas o relógio em Marselha anda mais rápido do que no resto do mundo.
O que ninguém diz abertamente é que essa modernização corre o risco de gentrificar a arquibancada. Se o OM se tornar apenas mais uma franquia global polida, onde fica o "povo" de Marselha? Aquele que economiza a semana inteira para pagar o ingresso? O futebol francês precisa de um OM forte, isso é inegável. O PSG, com seus petrodólares, joga em outra liga (literal e figurativamente). O Marselha é a resistência da imperfeição humana contra a máquina.
No fim das contas, a planilha do Excel pode até ditar as contratações, mas, quando a bola rola e o estádio ruge, até o algoritmo mais sofisticado treme. E é exatamente por isso que não conseguimos desviar o olhar.
Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.

