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Paquetá: A dança interrompida de um camisa 10 sob suspeita

Do samba no gramado à sombra de um banimento perpétuo. Como o talento mais lúdico da Seleção se tornou refém de um sistema de apostas que ameaça engolir o próprio espetáculo.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
28 janvier 2026 à 14:023 min de lecture
Paquetá: A dança interrompida de um camisa 10 sob suspeita

Houve um momento, em meados de 2023, em que o telefone de Lucas Paquetá tocou com a promessa do Olimpo. Do outro lado da linha imaginária estava Pep Guardiola e a máquina trituradora de recordes chamada Manchester City. Era a consagração lógica para o menino que saiu da Ilha de Paquetá carregando a herança pesada da criatividade brasileira. O contrato estava, dizem as más línguas (e as boas fontes), pronto. Caneta na mão, sorriso no rosto.

Então, o silêncio. Ou melhor, o ruído ensurdecedor de uma notificação da FA (Football Association).

Não foi uma lesão de ligamento cruzado que travou a carreira do camisa 10 do West Ham. Foi algo muito mais insidioso e moderno: algoritmos de casas de apostas. A acusação? Forçar cartões amarelos. O futebol, que antes temia pernas quebradas, agora treme diante de padrões de apostas suspeitos vindos da Ilha de Paquetá (o lugar, não o jogador). É uma ironia cruel.

“Estamos diante do paradoxo supremo: o futebol vende sua alma às casas de apostas, estampa suas marcas na camisa, mas criminaliza o atleta que se torna, voluntária ou involuntariamente, peça dessa engrenagem.”

Lucas continua jogando. E como joga. Quem o vê dominar uma bola no meio-campo lamacento da Premier League enxerga aquele futebol de rua, de provocação, de drible curto. Mas há uma nuvem cinza pairando sobre cada desarme. Cada vez que ele reclama com o árbitro, a torcida adversária não vê paixão; vê cálculo. "Ele quer o amarelo para bater a meta", sussurram as arquibancadas (e o Twitter, esse tribunal impiedoso).

O que está em jogo aqui não é apenas a carreira de um homem, mas a integridade da percepção pública. Paquetá se tornou o rosto de um problema que o esporte não sabe resolver. Se for inocente, terá perdido o auge físico e mental — e a chance de ser treinado pelo maior técnico da história — por causa de uma burocracia investigativa lenta. Se for culpado, entra para a história como o talento que trocou a glória eterna por trocados de apostas (mesmo que, para um milionário, a motivação financeira pareça absurda, o que nos leva a pensar em coação ou lealdade mal direcionada).

O Preço do 'Talvez'

Para entender o impacto real, precisamos olhar para os números que não aparecem no placar. O valor de mercado e a trajetória foram brutalmente alterados.

CenárioStatusConsequência Imediata
Antes da InvestigaçãoAlvo prioritário do Man. CityTransferência de £80m+ iminente. Protagonismo global.
Durante o InquéritoPilar do West Ham (com ressalvas)Valor congelado. Patrocinadores cautelosos. Desgaste mental.
O Pior Cenário (Banimento)Fim de carreira (Ex: Tonali/Toney)Possível banimento vitalício. Mancha indelével no legado.

A situação de Paquetá nos obriga a confrontar a hipocrisia do ecossistema. Ele veste uma camisa patrocinada por um site de "Bet", joga num estádio com placas de publicidade de "Bet", e a transmissão é interrompida por comerciais de "Bet". Mas ele, o gladiador na arena, deve ser a única virgem no bordel.

Aos olhos do espectador comum, ele é culpado até que se prove o contrário. É o escrutínio implacável. Ele erra um passe? Estava comprado. Ele leva um carrinho e revida? Estava buscando o cartão. A espontaneidade, marca registrada do futebol brasileiro que ele tão bem representa, é assassinada pela dúvida.

Restam poucas certezas. Uma delas é que o talento de Lucas Paquetá é grande demais para ser uma nota de rodapé em um escândalo de apostas. Mas o tempo, esse juiz que não aceita recursos, está passando. E a cada rodada que a FA adia o veredito, assistimos a um pouco da magia morrer sufocada pela burocracia e pela desconfiança. O futebol moderno criou um monstro e agora não sabe como impedi-lo de devorar seus próprios filhos.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.