Tech

Pix do Banco do Brasil fora do ar: A fragilidade da nossa utopia 'cashless'

Quando o aplicativo do maior banco estatal trava, não é apenas um inconveniente técnico. É a prova cabal de que a sociedade sem dinheiro vivo está sendo construída sobre alicerces de areia.

DR
Damien RocheJournaliste
15 février 2026 à 08:013 min de lecture
Pix do Banco do Brasil fora do ar: A fragilidade da nossa utopia 'cashless'

Toda vez que uma notificação de "Pix fora do ar" explode nas redes sociais, acompanhada daquele ícone de carregamento infinito no app do Banco do Brasil, os comunicados oficiais seguem o mesmo roteiro enfadonho. Falam em "intermitência momentânea", "atualização de sistemas" ou "instabilidade técnica". A linguagem corporativa é desenhada para acalmar, para fazer parecer que foi apenas um tropeço num caminho pavimentado.

Mas eu pergunto: até quando vamos fingir que isso é normal?

Não estamos falando de uma startup de garagem que esqueceu de pagar a AWS. Estamos falando do Banco do Brasil. Quando o Pix dessa instituição falha, o silêncio nas caixas registradoras de pequenos comércios é ensurdecedor. A questão aqui não é o erro em si (software quebra, sabemos disso), mas a fragilidade estrutural que esses apagões revelam sobre a nossa marcha forçada rumo a uma economia 100% digital.

"Estabilidade é um conceito muito relativo quando o seu almoço depende de um servidor respondendo em Brasília e não da nota de papel no seu bolso."

O mito da infraestrutura robusta

Há um ceticismo saudável que precisamos adotar sobre a digitalização bancária. Nos venderam a ideia de que o dinheiro físico é obsoleto, sujo e perigoso. Talvez seja. Mas o dinheiro físico não precisa de 4G, não depende de APIs do Banco Central e, crucialmente, não trava na hora do rush.

O que os relatórios de TI dos bancões raramente admitem em público é o peso do legado. Temos camadas de tecnologia moderna (a interface bonitinha do app) rodando sobre mainframes e códigos que, em alguns casos, são quase arqueológicos. Quando o volume de transações Pix supera as expectativas — e sempre supera, porque o brasileiro adotou o sistema com um fervor quase religioso —, as costuras desse Frankenstein tecnológico começam a estalar.

CritérioDinheiro FísicoPix / Digital
Disponibilidade100% (se estiver no bolso)Variável (depende de sinal/banco)
Ponto Único de FalhaPerda física / RouboSmartphone, App do Banco, ISP, Banco Central
Dependência de TerceirosNenhumaTotal (Bancos e Telecom)

Centralização é o novo risco sistêmico

O entusiasmo com a conveniência nos cegou para a redundância. Antigamente, se o sistema de cartões caísse, você usava o cheque. Se o cheque não fosse aceito, usava o dinheiro. Hoje? Se o app do BB não abre, você está paralisado. (E não adianta dizer "use outro banco", porque a maioria da população concentra sua renda em uma única conta salário).

A verdade incômoda é que criamos um gargalo de eficiência. Ao concentrar todos os micropagamentos em um sistema digital instantâneo, removemos o atrito, sim, mas também removemos os amortecedores. Uma falha de 30 minutos no Pix do Banco do Brasil em uma sexta-feira à tarde causa um prejuízo econômico difuso que raramente é contabilizado nas planilhas de "uptime" de 99,9%.

Então, da próxima vez que ler "sistema indisponível", não encare apenas como má sorte. Encare como um alerta. Estamos construindo uma sociedade onde a capacidade de comprar pão depende de que dezenas de sistemas complexos funcionem em perfeita harmonia. E a harmonia, como a história nos ensina, é a exceção, não a regra.

DR
Damien RocheJournaliste

Geek, hacker et prophète à temps partiel. Je vous explique pourquoi votre grille-pain va bientôt dominer le monde. L'IA, la crypto et le futur, c'est maintenant.