Économie

Rio 2026: A contabilidade criativa por trás do paetê

Enquanto a Sapucaí brilha, os balanços financeiros operam nas sombras. O Carnaval de 2026 bate recordes de receita, mas quem realmente lucra com a festa mais cara do planeta? Spoiler: não é a comunidade.

SG
Stéphane GuérinJournaliste
14 février 2026 à 23:023 min de lecture
Rio 2026: A contabilidade criativa por trás do paetê

Esqueça, por um momento, a poesia de um samba-enredo bem construído ou a lágrima que escorre no rosto da baiana. Isso a TV já mostra (e fatura milhões com os direitos de imagem). O que nos interessa hoje, neste sábado de Carnaval onde o Rio de Janeiro parece suspender a lei da gravidade, é a lei da oferta e da demanda. E, mais especificamente, a opacidade dos números que sustentam o "maior espetáculo da Terra".

A Prefeitura e a Riotur adoram divulgar cifras astronômicas. Falam em 5,5 bilhões de reais injetados na economia carioca em 2026. Um número redondo, bonito, perfeito para manchetes. Mas se você pegar a lupa, a conta não fecha tão fácil. Quanto desse montante fica, de fato, na cidade? E quanto evapora para paraísos fiscais através de redes hoteleiras internacionais e patrocinadores globais que usam a festa para greenwashing de suas marcas?

O Carnaval do Rio deixou de ser uma festa popular para se tornar um ativo financeiro de alto risco e retorno duvidoso para a base da pirâmide.

O modelo de negócio das Escolas de Samba sofreu uma mutação silenciosa. Antigamente, o patrono (leia-se: o bicheiro) bancava o luxo para ganhar prestígio social. Hoje, com a profissionalização forçada e a entrada de grandes conglomerados de mídia e apostas online (as "bets"), o jogo virou corporativo. Mas a estrutura arcaica permanece.

A inflação do entretenimento

O ingresso para a arquibancada popular virou artigo de luxo. A tal "democratização" do sambódromo é um mito que se repete a cada fevereiro. O povão, aquele que constrói os carros alegóricos nos barracões abafados da Cidade do Samba, foi empurrado para a TV ou para os blocos de rua (que, ironicamente, também estão sendo cercados por cordas de patrocínio).

Veja a discrepância entre o discurso oficial e a realidade do asfalto:

IndicadorNarrativa Oficial (LIESA/Gov)Realidade Observada
Financiamento100% Legal e via Leis de IncentivoDependência contínua de figuras do "submundo" para fechar o caixa de última hora.
Retorno SocialGeração de renda para as comunidadesTrabalho precarizado e temporário; lucro concentrado em camarotes corporativos.
PúblicoFesta do PovoEvento para turistas e elite local (Camarotes custam até R$ 15 mil/noite).

E há o elefante na sala: a dívida. Quantas dessas agremiações, que desfilam opulência com plumas importadas da China e tecnologias de ponta, não estão tecnicamente falidas? A "criatividade" contábil das escolas é tão fascinante quanto a comissão de frente. Dívidas trabalhistas são empurradas com a barriga, enquanto o cachê das celebridades nos camarotes é pago à vista (e em dia).

O que ninguém te conta sobre os Camarotes

A verdadeira batalha não acontece na pista de desfile, valendo notas dos jurados. Acontece nos camarotes. É lá que o PIB do Rio de Janeiro tenta se reconectar, entre um drink de gin tônica e um show de sertanejo que nada tem a ver com samba. O Sambódromo virou um pretexto, um pano de fundo luxuoso para um networking regado a excessos.

Se o Carnaval é o termômetro cultural, a febre está alta. A cultura resiste? Sim, graças à teimosia dos compositores, das baianas e da velha guarda que se recusa a vender a alma. Mas economicamente, o Rio de 2026 vende uma ilusão de prosperidade enquanto a cidade real, fora dos holofotes da Sapucaí, continua pagando a conta.

SG
Stéphane GuérinJournaliste

L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.