Sabesp: O milagre de 2029 e a ilusão do desconto de 1%
Enquanto a Faria Lima celebrava com confetes, o consumidor recebeu um desconto simbólico. A privatização da joia da coroa paulista promete universalização recorde, mas a conta fecha?

⚡ O essencial
A privatização da Sabesp foi concluída com a Equatorial como investidora estratégica, sendo a única a apresentar proposta. O governo promete universalizar o saneamento até 2029 (4 anos antes da meta nacional) e aplicou uma redução imediata de tarifas. Analistas céticos, porém, apontam que o desconto para a maioria é irrisório (1%) e questionam a viabilidade técnica de levar esgoto a áreas irregulares em prazo tão curto.
O martelo bateu na B3, os sorrisos foram trocados e o discurso de "modernização" ecoou. Mas, passado o barulho dos confetes, sobrou a aritmética fria. A privatização da Sabesp, vendida como a panaceia para o saneamento paulista, carrega em seu ventre números que, se torturados o suficiente, confessam qualquer coisa. Mas será que eles resistem à luz do dia?
O primeiro ponto de interrogação é o próprio leilão. (Você costuma ver leilões de joias raras com apenas um comprador?). A Equatorial levou 15% da empresa sem concorrência, pagando R$ 67 por ação — um valor confortavelmente abaixo do que o mercado praticava na época. A falta de disputa, atribuída a cláusulas que blindaram a empresa contra concorrentes como a Aegea, transformou o certame em uma formalidade de luxo.
"É como se o Real Madrid fosse vendido pelo preço de um time da Série B, e a torcida fosse orientada a aplaudir a gestão."
A mágica do calendário: 2029 vs. Realidade
A promessa de ouro é a antecipação da universalização do saneamento de 2033 para 2029. Soa fantástico em um PowerPoint. Na prática, significa resolver em cinco anos o que não foi resolvido em cinquenta: o "último quilômetro".
Não estamos falando de passar canos na Avenida Paulista. O desafio agora são as áreas irregulares, comunidades densas e regiões rurais. A Equatorial, vinda do setor elétrico e com experiência de saneamento limitada ao Amapá (uma escala incomparável à de SP), terá que realizar um balé logístico e social inédito.
| A Narrativa Oficial | O Ceticismo do Mercado |
|---|---|
| Investimento de R$ 70 bi garantido | Risco de CAPEX inflado pressionar tarifas futuras (modelo pós-pago) |
| Redução de tarifa para todos | Desconto de 1% no residencial é imperceptível no orçamento |
| Gestão privada eficiente | Histórico de cortes de custo agressivos da Equatorial pode afetar serviço |
O desconto de centavos
E a redução da conta? Ah, o desconto. Para as famílias vulneráveis no CadÚnico, os 10% são bem-vindos. Mas para a vasta classe média paulista, o desconto de 1% (e 0,5% para outras categorias) é quase um erro de arredondamento. Em uma conta de R$ 100,00, você economiza R$ 1,00.
Isso levanta a questão estrutural: o modelo de privatização prevê que os investimentos massivos feitos agora serão remunerados depois. Se a eficiência operacional não cobrir essa conta gigantesca de R$ 70 bilhões, adivinhe quem pagará o reajuste na próxima revisão tarifária?
👀 Por que ninguém mais quis comprar?
A água é um monopólio natural. Você não pode trocar de fornecedor se a torneira secar. Entregar esse monopólio a uma gestão privada focada em dividendos exige uma agência reguladora (Arsesp) com dentes afiados. Hoje, a dúvida que paira não é sobre a capacidade da Sabesp de gerar lucro — isso é fácil —, mas sobre sua vocação de atender onde o lucro não chega.
O futuro da Sabesp foi vendido. Resta saber se compramos uma solução ou um boleto futuro com juros compostos.
L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.


