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Sunderland x Liverpool: A Cicatriz de 73 e o Abismo do Futebol Moderno

Esqueça a tabela atual por um segundo. Este confronto é um conto de duas cidades do norte inglês que tomaram rumos opostos, unidas por um passado de fuligem, uma bola de praia infame e a glória improvável.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
11 février 2026 à 20:013 min de lecture
Sunderland x Liverpool: A Cicatriz de 73 e o Abismo do Futebol Moderno

Imagine a cena: Wembley, maio de 1973. A chuva fina de Londres não conseguia esfriar o fervor de 100 mil pessoas. De um lado, o todo-poderoso Leeds United (a máquina de guerra da época). Do outro, o Sunderland, um time da segunda divisão. Quando Ian Porterfield marcou aquele gol, não foi apenas uma bola na rede; foi o grito de uma cidade industrial que se recusava a morrer em silêncio.

Por que começar por aqui? Porque entender a rivalidade — ou melhor, a conexão espiritual — entre Sunderland e Liverpool exige olhar pelo retrovisor. Não se trata apenas de três pontos.

"O futebol no norte da Inglaterra não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso." — A máxima de Bill Shankly nunca fez tanto sentido quanto ao olharmos para o abismo financeiro que hoje separa estes dois gigantes.

Enquanto o Liverpool decolou para se tornar uma marca global, vestindo a realeza da Champions League e vendendo camisas de Salah em Tóquio, o Sunderland permaneceu enraizado no calvário das divisões inferiores (com uma ajudinha dramática das câmeras da Netflix, claro). Mas há uma beleza trágica nisso. O torcedor dos Black Cats no Stadium of Light carrega uma autenticidade que o dinheiro do petróleo ainda não conseguiu comprar.

O dia em que o bizarro entrou em campo

Mas a nostalgia nem sempre é feita de taças em preto e branco. Às vezes, ela é vermelha, inflável e foi jogada por um garoto na arquibancada. Quem estava lá em 2009 jamais esquecerá. O futebol moderno, com toda a sua tecnologia e VAR, foi humilhado por um brinquedo de praia.

👀 O mistério da "Beach Ball Goal" (Você lembra?)
Em outubro de 2009, o Sunderland venceu o Liverpool por 1 a 0 graças a um gol bizarro de Darren Bent. O chute dele desviou em uma bola de praia vermelha (do Liverpool!) que havia sido jogada no gramado por um torcedor visitante. A bola oficial foi para um lado, a de praia para o outro, e o goleiro Pepe Reina ficou paralisado. Pela regra, o jogo deveria ter sido parado. Não foi. O caos venceu a ordem.

Esse incidente, por mais ridículo que pareça, simboliza o que esse confronto traz à tona: o imponderável. Quando o Sunderland recebe o Liverpool (ou vice-versa, nas raras ocasiões de copas domésticas hoje em dia), o abismo técnico desaparece por noventa minutos. É o orgulho da classe operária de Wearside contra a aristocracia da bola de Merseyside.

O que nos sobra hoje? Uma lição sobre identidade. O Liverpool nos ensina como um clube pode crescer sem (totalmente) vender sua alma; o hino You'll Never Walk Alone ainda arrepia, mesmo que os ingressos custem uma fortuna. O Sunderland, por sua vez, nos lembra que o clube é a cidade. Quando os estaleiros fecharam, o time restou. Se o time cai, a cidade sangra.

Numa era de franquias estéreis e superligas ameaçadoras, revisitar Sunderland x Liverpool é um ato de resistência. É lembrar que o futebol, na sua essência mais pura, ainda é sobre 22 homens correndo atrás de uma bola (e, ocasionalmente, de uma boia inflável) enquanto milhares cantam para esquecer a dureza da semana.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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