A conta que ninguém paga: por que o custo real dos ciclones é o triplo do oficial
Os relatórios do governo dizem que a tempestade custou bilhões. Eles mentem. Não por malícia, mas por miopia contábil. O verdadeiro rombo é invisível e você já está pagando por ele no supermercado.

Toda vez que o céu desaba sobre o Sul do Brasil, assistimos ao mesmo teatro macabro de calculadoras. Um ciclone varre o Rio Grande do Sul, as câmeras mostram telhados voando, e dias depois, um burocrata de Brasília ou Porto Alegre anuncia com gravidade: "O prejuízo foi de R$ 1,3 bilhão". Ponto final. Próxima pauta.
Permitam-me ser o desmancha-prazeres (ou o realista da sala): esse número é uma ficção reconfortante. Ele mede tijolos, não vidas econômicas. Ele conta quantos quilômetros de asfalto foram arrancados, mas ignora solenemente o caos logístico, o trauma produtivo e a inflação silenciosa que se instala quando as águas baixam.
Os números oficiais são como um iceberg: mostram a ponta do dano físico e escondem a montanha de prejuízos operacionais submersos.
O erro da calculadora de padaria
Vamos dissecar o exemplo recente de setembro de 2023. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estimou perdas de R$ 1,3 bilhão. Parece muito? É troco de pinga perto da realidade.
Quando uma ponte cai no interior do Rio Grande do Sul, o "custo" oficial é o preço de uma nova ponte. O que a planilha do governo não vê (ou finge não ver) é o caminhão de soja que agora precisa dar uma volta de 150 km. É o diesel queimado a mais. É a carga perecível que apodrece no engarrafamento do desvio. Quem paga essa conta? Spoiler: não é o Estado. É repassado para o preço do leite, do arroz, da carne que chega à sua mesa em São Paulo ou no Rio.
A tabela da verdade (O que a TV não mostra)
| Item Contabilizado (Oficial) | O Custo Fantasma (Realidade) |
|---|---|
| Reconstrução de galpão agrícola | Aumento do prêmio do seguro rural (que já cobre menos de 5% da área plantada em alguns setores). |
| Reparo de rodovia estadual | Frete 30% mais caro por meses devido aos desvios logísticos. |
| Auxílio-moradia temporário | Queda de produtividade por trauma psicológico e dias de trabalho perdidos (Burnout climático). |
O agro não é pop, é vulnerável
Fala-se muito na robustez do agro brasileiro, mas os ciclones extratropicais estão expondo uma fratura exposta: o mercado de seguros. Com perdas na agricultura representando cerca de 65% dos prejuízos privados em desastres, as seguradoras estão recuando. O "risco Brasil" agora inclui o "risco nuvem".
Se o produtor não consegue segurar sua safra porque o prêmio ficou proibitivo após três ciclones seguidos, ele planta menos. Se ele planta menos, a oferta cai. Se a oferta cai, a inflação sobe. Percebe o efeito dominó? O ciclone não parou quando o vento cessou; ele continua girando na economia meses depois, invisível aos olhos da Defesa Civil.
A infraestrutura de papel machê
Não podemos ignorar o óbvio: nossos ciclones são caros porque nossa infraestrutura é barata. Construímos estradas feitas para dias de sol em um país que está entrando na era das tempestades perpétuas. O tal "Custo Brasil" agora tem um adicional climático.
Enquanto discutimos se foi R$ 1 bilhão ou R$ 2 bilhões, a verdadeira pergunta deveria ser: quanto custa não adaptar o país? Cada real "economizado" em prevenção se transforma em dez reais de prejuízo na reconstrução. Mas prevenção não dá voto, e obra enterrada não sai na foto de inauguração.
O impacto silencioso não é a árvore caída. É a certeza, cada vez mais enraizada no mercado, de que o Brasil se tornou um país de alto risco climático, sem infraestrutura para aguentar o tranco. E essa fatura, meus caros, chega todo mês, parcelada, sem que a gente perceba.

