Detran RS: O labirinto de taxas (e falhas) que desafia a lógica
Enquanto o discurso oficial vende a digitalização, o cidadão gaúcho paga uma das contas mais altas do país para navegar em um sistema que parece desenhado para travar. A eficiência é refém da arrecadação?

Há uma dissonância cognitiva fascinante quando atravessamos a fronteira burocrática do Rio Grande do Sul. Nos relatórios oficiais, palavras como "inovação", "GovTech" e "agilidade" aparecem com a frequência de um pisca-alerta esquecido ligado. Na prática, no balcão (físico ou virtual) do Detran RS, a realidade tem a textura áspera de uma impressora matricial dos anos 90.
Não se deixem enganar pelos novos aplicativos coloridos. A infraestrutura que sustenta o trânsito gaúcho sofre de uma patologia crônica: ela foi desenhada para arrecadar, não para servir. Se a segurança viária fosse realmente a prioridade número um, o acesso à habilitação não custaria o equivalente a dois ou três salários mínimos, empurrando milhares para a ilegalidade (e consequentemente, para a insegurança).
A burocracia estatal não é um bug do sistema; muitas vezes, ela é a feature principal que justifica a existência de intermediários.
O ceticismo aqui não é gratuito. Olhemos para o modelo dos CRVAs (Centros de Registro de Veículos Automotores). São concessões que operam como feudos cartoriais. Você precisa de um carimbo, uma vistoria, um reconhecimento? Prepare a carteira. O sistema é fragmentado de propósito? Talvez não por malícia original, mas por uma inércia conveniente que mantém uma cadeia de despachantes e taxas de conveniência girando.
Promessa vs. Realidade
Vamos dissecar o abismo entre o que é prometido nas campanhas de modernização e o que acontece quando o servidor cai numa terça-feira chuvosa:
| Narrativa Oficial | Experiência do Cidadão |
|---|---|
| Digitalização total dos serviços | Sites instáveis e exigência de presença física para "validar" o digital. |
| Unificação de dados (Gov.br) | Sistemas que não conversam entre si (Detran x Seguradoras x CFCs). |
| Preços justos e tabelados | Uma das CNHs mais caras do Brasil, repleta de taxas "administrativas". |
O que poucos dizem em voz alta é que a ineficiência do Detran RS gera um mercado paralelo de "facilitadores". Quando o caminho oficial é um labirinto, quem vende o mapa do atalho lucra. A digitalização, que deveria eliminar o intermediário, muitas vezes apenas digitalizou a fila, sem resolver o gargalo do processamento.
E o impacto social? Imenso. O pequeno empreendedor que precisa do veículo para trabalhar fica refém de prazos que não fazem sentido na era do 5G. Um caminhão parado por burocracia de licenciamento não é apenas um veículo estático; é frete que não chega, é economia que sangra. O Rio Grande do Sul, que se orgulha de sua força de trabalho, permite que seus órgãos públicos atuem como âncoras.
Reformar isso exige mais do que um novo site ou um totem de autoatendimento. Exige a coragem política de desmantelar feudos e admitir que o cidadão não é um cliente a ser explorado, mas o patrão que está cansado de pagar a conta por um serviço que, ironicamente, deveria facilitar a sua vida.
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