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PIS/PASEP: O 'bônus' que chega atrasado e vale cada vez menos

Esqueça a narrativa oficial de auxílio extra. Entre calendários defasados e a inflação do supermercado, o abono salarial tornou-se um empréstimo sem juros que o trabalhador faz ao Estado.

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Agus Wijaya
16 Februari 2026 pukul 11.013 menit baca
PIS/PASEP: O 'bônus' que chega atrasado e vale cada vez menos

Todo início de ano, a cena se repete com a precisão de um relógio suíço (ou seria um relógio quebrado?). O governo anuncia o calendário do abono salarial PIS/PASEP, a imprensa replica as datas com entusiasmo festivo e milhões de brasileiros correm para o aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. Mas vamos parar de aplaudir o óbvio por um segundo? O que é vendido como um "presente" ou um "14º salário" para quem ganha pouco é, na prática, uma devolução de dinheiro corroído pelo tempo.

A matemática é cruel e não aceita desaforo. O valor máximo é de um salário mínimo. Parece justo? Talvez em 2010. Hoje, esse montante mal cobre uma cesta básica completa em capitais como São Paulo ou Florianópolis. Estamos celebrando a sobrevivência, não o incremento de renda.

O Empréstimo Compulsório Disfarçado

O ponto que poucos tocam é o delay cronológico. O abono pago em 2024, por exemplo, refere-se ao ano-base 2022. Você percebe a ironia? O trabalhador gera a riqueza, o Estado recolhe, segura esse dinheiro por dois anos (rendendo juros para os cofres públicos, certamente) e devolve o valor nominal quando a inflação já fez o favor de devorar 10% ou 15% do poder de compra original.

Se um banco fizesse isso com seu dinheiro — reter por 24 meses sem correção real — você chamaria a polícia. Quando o governo faz, chamamos de "benefício social".

CenárioO que o Governo DizA Realidade do Bolso
ValorAumento nominal do mínimoCorrosão pela inflação de alimentos
PrazoCalendário organizadoDefasagem de 2 anos (Ano-base antigo)
AcessoDigital e simplesSistema instável e dados divergentes

Não é apenas sobre o dinheiro. É sobre a burocracia punitiva. Tente resolver uma divergência de dados no sistema do Dataprev. O trabalhador, muitas vezes sem letramento digital avançado, é jogado em um labirinto entre a empresa, a Receita Federal e o Ministério do Trabalho. O sistema foi desenhado para falhar? Talvez não intencionalmente, mas a ineficiência estatal é uma barreira de entrada tão eficaz quanto um muro de concreto.

"O abono salarial deixou de ser um mecanismo de distribuição de renda para se tornar um analgésico econômico. Ele não cura a doença da baixa remuneração, apenas mascara a dor por trinta dias."

E o dinheiro do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador)? Ele financia o BNDES, financia o seguro-desemprego e, claro, o abono. Mas com a pressão fiscal aumentando, vozes em Brasília (aquelas que sussurram em corredores acarpetados, longe das fábricas) já sugerem revisões. Querem restringir ainda mais o acesso. O argumento? "Eficiência de gastos".

A verdade incômoda é que o PIS/PASEP é um paliativo necessário apenas porque falhamos estruturalmente. Se o salário mínimo cumprisse o que promete a Constituição (moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social), não precisaríamos esperar dois anos por uma esmola indexada. Enquanto tratarmos direitos básicos como benesses eventuais, continuaremos aplaudindo a devolução das migalhas do nosso próprio pão.

AW
Agus Wijaya

Jurnalis yang berspesialisasi dalam Ekonomi. Bersemangat menganalisis tren terkini.