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A ilusão da agulha: por que a vacina não vai nos salvar da nossa própria sujeira

Enquanto celebramos a tecnologia da vacinação em 2026, ignoramos o elefante na sala (ou o mosquito no esgoto): 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento básico, alimentando a epidemia que juramos combater.

JW
Jennifer WilsonJournalist
19 January 2026 at 09:01 am3 min read
A ilusão da agulha: por que a vacina não vai nos salvar da nossa própria sujeira

Janeiro de 2026. O Brasil respira, enfim, o ar de um otimismo tecnológico. A tão aguardada vacina 100% nacional do Butantan está prestes a chegar aos braços dos profissionais de saúde em fevereiro, e os estoques da Qdenga para 2025, embora limitados a 9,5 milhões de doses, foram disputados como ouro. Há uma sensação de vitória no ar, uma crença quase religiosa de que a ciência finalmente dobrou a natureza. (Mas será mesmo?)

Vamos ser honestos: estamos tentando parar um tsunami com um guarda-chuva de alta tecnologia.

A narrativa oficial é sedutora. Ela vende a ideia de que a dengue é um problema médico, resolvível com uma injeção e um carimbo na carteirinha de vacinação. É uma mentira conveniente. A dengue não é apenas uma falha imunológica; é uma falha urbanística. É o sintoma febril de um país que aprendeu a sequenciar genomas antes de aprender a tratar seu próprio esgoto.

Estamos travando uma guerra do século XXI com ferramentas de ponta, enquanto mantemos condições sanitárias do século XIX para metade da população. A vacina é o teto de uma casa que não tem alicerces.

Os números, frios e implacáveis, desmentem a euforia. Enquanto o Ministério da Saúde corre para distribuir doses que cobrem uma fração irrisória da população — focando em crianças e adolescentes porque a conta simplesmente não fecha para todos —, o verdadeiro criadouro do Aedes aegypti permanece intocado. Em 2024, a falta de saneamento básico mandou 344 mil brasileiros para o hospital. A maioria? Vítimas de arboviroses. O mosquito não precisa de passaporte vacinal; ele precisa de água parada e suja, algo que oferecemos com generosidade criminosa.

A Esperança (Vacina)A Realidade (Saneamento)
~9,5 milhões de doses (Qdenga 2025)90 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto
Custo bilionário de importação/produçãoR$ 49,9 milhões gastos pelo SUS só com internações (2024)
Cobertura restrita (grupos prioritários)Cobertura universal do mosquito (democrático no caos)

Por que insistimos na "febre da esperança"? Porque infraestrutura é chata. Obra de saneamento enterra canos e dinheiro; ninguém corta fita inaugural de tubulação de esgoto com a mesma pompa de uma campanha de vacinação nacional. A vacina gera a foto perfeita. O saneamento gera transtorno no trânsito e resultados que só aparecem na próxima década.

O que ninguém diz é que a vacinação, embora vital para evitar casos graves e mortes individuais, não erradica a circulação do vírus se o vetor continua se reproduzindo exponencialmente. Estamos enxugando gelo com toalhas de seda. A baixa adesão à segunda dose da Qdenga em 2024 já nos mostrou que nem a solução mágica é infalível quando depende do comportamento humano. Agora, com a vacina do Butantan, o risco é o "efeito relaxamento": vacinados, nos sentiremos imunes à responsabilidade de cobrar o básico.

Quem ganha com isso? A indústria farmacêutica, claro, e os gestores que podem apresentar gráficos de "doses aplicadas". Quem perde? O morador da periferia do Centro-Oeste ou do Norte, onde a vacina chega de caminhão, mas a água tratada ainda é um luxo distante. Para eles, a picada da agulha é um alívio momentâneo; a picada do mosquito é uma certeza diária.

JW
Jennifer WilsonJournalist

Journalist specialising in Society. Passionate about analysing current trends.