Société

A ilusão da agulha: por que a vacina não vai nos salvar da nossa própria sujeira

Enquanto celebramos a tecnologia da vacinação em 2026, ignoramos o elefante na sala (ou o mosquito no esgoto): 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento básico, alimentando a epidemia que juramos combater.

MC
Myriam CohenJournaliste
19 janvier 2026 à 09:013 min de lecture
A ilusão da agulha: por que a vacina não vai nos salvar da nossa própria sujeira

Janeiro de 2026. O Brasil respira, enfim, o ar de um otimismo tecnológico. A tão aguardada vacina 100% nacional do Butantan está prestes a chegar aos braços dos profissionais de saúde em fevereiro, e os estoques da Qdenga para 2025, embora limitados a 9,5 milhões de doses, foram disputados como ouro. Há uma sensação de vitória no ar, uma crença quase religiosa de que a ciência finalmente dobrou a natureza. (Mas será mesmo?)

Vamos ser honestos: estamos tentando parar um tsunami com um guarda-chuva de alta tecnologia.

A narrativa oficial é sedutora. Ela vende a ideia de que a dengue é um problema médico, resolvível com uma injeção e um carimbo na carteirinha de vacinação. É uma mentira conveniente. A dengue não é apenas uma falha imunológica; é uma falha urbanística. É o sintoma febril de um país que aprendeu a sequenciar genomas antes de aprender a tratar seu próprio esgoto.

Estamos travando uma guerra do século XXI com ferramentas de ponta, enquanto mantemos condições sanitárias do século XIX para metade da população. A vacina é o teto de uma casa que não tem alicerces.

Os números, frios e implacáveis, desmentem a euforia. Enquanto o Ministério da Saúde corre para distribuir doses que cobrem uma fração irrisória da população — focando em crianças e adolescentes porque a conta simplesmente não fecha para todos —, o verdadeiro criadouro do Aedes aegypti permanece intocado. Em 2024, a falta de saneamento básico mandou 344 mil brasileiros para o hospital. A maioria? Vítimas de arboviroses. O mosquito não precisa de passaporte vacinal; ele precisa de água parada e suja, algo que oferecemos com generosidade criminosa.

A Esperança (Vacina)A Realidade (Saneamento)
~9,5 milhões de doses (Qdenga 2025)90 milhões de brasileiros sem coleta de esgoto
Custo bilionário de importação/produçãoR$ 49,9 milhões gastos pelo SUS só com internações (2024)
Cobertura restrita (grupos prioritários)Cobertura universal do mosquito (democrático no caos)

Por que insistimos na "febre da esperança"? Porque infraestrutura é chata. Obra de saneamento enterra canos e dinheiro; ninguém corta fita inaugural de tubulação de esgoto com a mesma pompa de uma campanha de vacinação nacional. A vacina gera a foto perfeita. O saneamento gera transtorno no trânsito e resultados que só aparecem na próxima década.

O que ninguém diz é que a vacinação, embora vital para evitar casos graves e mortes individuais, não erradica a circulação do vírus se o vetor continua se reproduzindo exponencialmente. Estamos enxugando gelo com toalhas de seda. A baixa adesão à segunda dose da Qdenga em 2024 já nos mostrou que nem a solução mágica é infalível quando depende do comportamento humano. Agora, com a vacina do Butantan, o risco é o "efeito relaxamento": vacinados, nos sentiremos imunes à responsabilidade de cobrar o básico.

Quem ganha com isso? A indústria farmacêutica, claro, e os gestores que podem apresentar gráficos de "doses aplicadas". Quem perde? O morador da periferia do Centro-Oeste ou do Norte, onde a vacina chega de caminhão, mas a água tratada ainda é um luxo distante. Para eles, a picada da agulha é um alívio momentâneo; a picada do mosquito é uma certeza diária.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.