Sport

A Ilusão da Competitividade: O Brasileirão virou um cassino de castas?

Esqueça a mística do "país do futebol". Por trás dos dribles, o Campeonato Brasileiro tornou-se um gráfico de Excel cruel onde a imprevisibilidade é apenas um erro de arredondamento.

CP
Chris PattersonJournalist
4 February 2026 at 11:01 pm3 min read
A Ilusão da Competitividade: O Brasileirão virou um cassino de castas?

Vendem-nos a ideia de que o Campeonato Brasileiro é a liga mais difícil do mundo. "Qualquer um pode ganhar de qualquer um", repetem os narradores, como um mantra para justificar a audiência de um Cuiabá contra Bragantino numa quarta-feira chuvosa. Mas será mesmo? Se tirarmos os óculos da paixão e colocarmos a lupa dos balanços financeiros, a narrativa do "futebol raiz" desmorona mais rápido que a defesa de um time no Z4.

A verdade incômoda (que a TV tenta esconder com replays em câmera lenta) é que o Brasileirão deixou de ser um torneio esportivo para se tornar uma vitrine de desigualdade estrutural. Não estamos mais assistindo a 20 clubes competindo pelo mesmo troféu. Estamos vendo três campeonatos simultâneos acontecendo no mesmo gramado: a liga dos super-ricos, a classe média endividada tentando não falir, e os condenados à Série B que servem apenas de sparring.

"O futebol moderno não perdoa o romantismo. Quem não vira empresa, vira estatística de rebaixamento."

A chegada das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) acelerou um processo que já era irreversível: a gentrificação da tabela. O abismo entre o G-4 e o resto não é técnico; é orçamentário. Enquanto clubes como Flamengo e Palmeiras (e agora os anabolizados pelo dinheiro do petróleo ou fundos de investimento) operam com orçamentos que flertam com o bilhão, o resto do pelotão sobrevive vendendo o almoço – suas promessas da base – para pagar o jantar.

O abismo em números

Não acredita na disparidade? Os números são frios e não torcem para ninguém. Veja a comparação estimada de valor de mercado e folha salarial entre o topo da pirâmide e a base que luta para respirar:

CategoriaExemplo (Topo)Exemplo (Base)Disparidade
Valor de Elenco~R$ 900 mi (Flamengo/Palmeiras)~R$ 80 mi (Juventude/Criciúma)11x maior
Investimento AnualIlimitado (com mecenato)SobrevivênciaAbissal
Objetivo RealMundial de ClubesPagar salários em diaRealidades distintas

E onde entra o entretenimento nisso? Ele virou um subproduto. O verdadeiro produto do Brasileirão hoje é a exportação de commodities humanas. O garoto de 17 anos que brilha no domingo não é um ídolo em formação para a torcida local; ele é um ativo financeiro pré-vendido para a Premier League ou La Liga. O torcedor brasileiro paga ingresso para ver um "teaser" do que o europeu vai desfrutar na íntegra.

Além disso, o jogo virou pano de fundo para as casas de apostas. A camisa dos times virou um abadá de logomarcas de "Bets", transformando cada partida em uma roleta gigante. A emoção do gol é secundária ao green no aplicativo. Estamos torcendo por times ou por odds?

O que ninguém te conta é que essa "espanholização" do futebol brasileiro (dois ou três times dominando para sempre) mata o produto a longo prazo. Sem imprevisibilidade real, o entretenimento vira monólogo. E monólogos, por mais caros que sejam os atores, tendem a dar sono.

CP
Chris PattersonJournalist

Journalist specialising in Sport. Passionate about analysing current trends.