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A Ilusão da Competitividade: O Brasileirão virou um cassino de castas?

Esqueça a mística do "país do futebol". Por trás dos dribles, o Campeonato Brasileiro tornou-se um gráfico de Excel cruel onde a imprevisibilidade é apenas um erro de arredondamento.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
4 février 2026 à 23:013 min de lecture
A Ilusão da Competitividade: O Brasileirão virou um cassino de castas?

Vendem-nos a ideia de que o Campeonato Brasileiro é a liga mais difícil do mundo. "Qualquer um pode ganhar de qualquer um", repetem os narradores, como um mantra para justificar a audiência de um Cuiabá contra Bragantino numa quarta-feira chuvosa. Mas será mesmo? Se tirarmos os óculos da paixão e colocarmos a lupa dos balanços financeiros, a narrativa do "futebol raiz" desmorona mais rápido que a defesa de um time no Z4.

A verdade incômoda (que a TV tenta esconder com replays em câmera lenta) é que o Brasileirão deixou de ser um torneio esportivo para se tornar uma vitrine de desigualdade estrutural. Não estamos mais assistindo a 20 clubes competindo pelo mesmo troféu. Estamos vendo três campeonatos simultâneos acontecendo no mesmo gramado: a liga dos super-ricos, a classe média endividada tentando não falir, e os condenados à Série B que servem apenas de sparring.

"O futebol moderno não perdoa o romantismo. Quem não vira empresa, vira estatística de rebaixamento."

A chegada das SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) acelerou um processo que já era irreversível: a gentrificação da tabela. O abismo entre o G-4 e o resto não é técnico; é orçamentário. Enquanto clubes como Flamengo e Palmeiras (e agora os anabolizados pelo dinheiro do petróleo ou fundos de investimento) operam com orçamentos que flertam com o bilhão, o resto do pelotão sobrevive vendendo o almoço – suas promessas da base – para pagar o jantar.

O abismo em números

Não acredita na disparidade? Os números são frios e não torcem para ninguém. Veja a comparação estimada de valor de mercado e folha salarial entre o topo da pirâmide e a base que luta para respirar:

CategoriaExemplo (Topo)Exemplo (Base)Disparidade
Valor de Elenco~R$ 900 mi (Flamengo/Palmeiras)~R$ 80 mi (Juventude/Criciúma)11x maior
Investimento AnualIlimitado (com mecenato)SobrevivênciaAbissal
Objetivo RealMundial de ClubesPagar salários em diaRealidades distintas

E onde entra o entretenimento nisso? Ele virou um subproduto. O verdadeiro produto do Brasileirão hoje é a exportação de commodities humanas. O garoto de 17 anos que brilha no domingo não é um ídolo em formação para a torcida local; ele é um ativo financeiro pré-vendido para a Premier League ou La Liga. O torcedor brasileiro paga ingresso para ver um "teaser" do que o europeu vai desfrutar na íntegra.

Além disso, o jogo virou pano de fundo para as casas de apostas. A camisa dos times virou um abadá de logomarcas de "Bets", transformando cada partida em uma roleta gigante. A emoção do gol é secundária ao green no aplicativo. Estamos torcendo por times ou por odds?

O que ninguém te conta é que essa "espanholização" do futebol brasileiro (dois ou três times dominando para sempre) mata o produto a longo prazo. Sem imprevisibilidade real, o entretenimento vira monólogo. E monólogos, por mais caros que sejam os atores, tendem a dar sono.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.