Culture

Leandra Leal: Quando a Herdeira da Lantejoula vira Trincheira Política

Ela cresceu dormindo em camarins enquanto a ditadura vigiava a plateia. Como Leandra Leal transformou o legado do Teatro Rival em um manifesto sobre quem tem direito à memória no Brasil.

IC
Isla ConnorJournalist
16 February 2026 at 11:02 pm3 min read
Leandra Leal: Quando a Herdeira da Lantejoula vira Trincheira Política

Dizem que a primeira babá de Leandra Leal foi a coxia. Não é força de expressão. Enquanto o Brasil do final dos anos 80 tentava se reencontrar democraticamente, uma pequena Leandra, filha de Angela Leal, corria entre as pernas de travestis, transformistas e intelectuais que faziam do Teatro Rival, no Rio de Janeiro, um bunker de liberdade. Essa imagem — a criança que naturaliza o que a sociedade conservadora demoniza — é a chave para entender por que Leandra não é apenas mais uma atriz global que assina manifestos.

Ela é, na verdade, uma curadora da resistência.

Muitos a veem apenas através das lentes das novelas de sucesso (quem esquece das Empreguetes?), mas reduzir Leandra Leal à teledramaturgia é ignorar sua atuação cirúrgica nos bastidores da política cultural. Ao assumir a gestão do Rival ao lado da mãe, ela não herdou apenas um imóvel na Cinelândia; herdou uma dívida histórica com a classe artística marginalizada.

"Cultura não é apenas entretenimento para o fim de semana. É a identidade de um povo. Quando você fecha um teatro, você apaga uma parte da história daquela cidade." – Leandra Leal (em diversas defesas do setor cultural).

O ponto de virada nessa narrativa não foi um papel na TV, mas a direção do documentário Divinas Divas. Ali, Leandra fez mais pela pauta LGBTQIA+ do que dezenas de campanhas publicitárias corporativas de junho. Ela não deu voz àquelas artistas pioneiras (elas já tinham voz, e muito potente); ela deu plataforma e, crucialmente, arquivo. Num país que queima seus museus e esquece seus ídolos, registrar a história da primeira geração de travestis artísticas do Brasil foi um ato político de preservação.

Mas o que isso muda na prática? Leandra representa a transição do artista que "reclama" para o artista que "gere". Ela transita entre o mainstream da Globo e a dureza de pagar as contas de um teatro de rua com a mesma fluidez. Isso incomoda. Incomoda porque quebra o estereótipo da celebridade alienada. Quando ela se posiciona politicamente, não é (apenas) opinião de Twitter; é a visão de quem conhece a planilha de custos de manter a cultura viva num país instável.

👀 Por que o Teatro Rival é tão simbólico nesta história?
Fundado em 1934, o Teatro Rival (hoje Rival Refit) sobreviveu à ditadura, à especulação imobiliária e à pandemia. Sob a batuta das Leal, o espaço se manteve como o palco da diversidade muito antes disso ser uma hashtag. É o lugar onde a alta cultura e a cultura de rua se encontram sem hierarquias. Manter o Rival aberto é, por si só, um ato de oposição ao desmonte cultural.

Hoje, ao observarmos sua trajetória, vemos que Leandra Leal utiliza sua imagem pública como um escudo para proteger o que acontece atrás das cortinas. Ela não molda o debate gritando mais alto, mas garantindo que o palco continue existindo para que outros possam gritar. Em tempos de algoritmos efêmeros, ela escolheu investir no concreto, na madeira do palco e na memória. E isso, senhoras e senhores, é a política mais radical que existe.

IC
Isla ConnorJournalist

Journalist specialising in Culture. Passionate about analysing current trends.