Leandra Leal: Quando a Herdeira da Lantejoula vira Trincheira Política
Ela cresceu dormindo em camarins enquanto a ditadura vigiava a plateia. Como Leandra Leal transformou o legado do Teatro Rival em um manifesto sobre quem tem direito à memória no Brasil.

Dizem que a primeira babá de Leandra Leal foi a coxia. Não é força de expressão. Enquanto o Brasil do final dos anos 80 tentava se reencontrar democraticamente, uma pequena Leandra, filha de Angela Leal, corria entre as pernas de travestis, transformistas e intelectuais que faziam do Teatro Rival, no Rio de Janeiro, um bunker de liberdade. Essa imagem — a criança que naturaliza o que a sociedade conservadora demoniza — é a chave para entender por que Leandra não é apenas mais uma atriz global que assina manifestos.
Ela é, na verdade, uma curadora da resistência.
Muitos a veem apenas através das lentes das novelas de sucesso (quem esquece das Empreguetes?), mas reduzir Leandra Leal à teledramaturgia é ignorar sua atuação cirúrgica nos bastidores da política cultural. Ao assumir a gestão do Rival ao lado da mãe, ela não herdou apenas um imóvel na Cinelândia; herdou uma dívida histórica com a classe artística marginalizada.
"Cultura não é apenas entretenimento para o fim de semana. É a identidade de um povo. Quando você fecha um teatro, você apaga uma parte da história daquela cidade." – Leandra Leal (em diversas defesas do setor cultural).
O ponto de virada nessa narrativa não foi um papel na TV, mas a direção do documentário Divinas Divas. Ali, Leandra fez mais pela pauta LGBTQIA+ do que dezenas de campanhas publicitárias corporativas de junho. Ela não deu voz àquelas artistas pioneiras (elas já tinham voz, e muito potente); ela deu plataforma e, crucialmente, arquivo. Num país que queima seus museus e esquece seus ídolos, registrar a história da primeira geração de travestis artísticas do Brasil foi um ato político de preservação.
Mas o que isso muda na prática? Leandra representa a transição do artista que "reclama" para o artista que "gere". Ela transita entre o mainstream da Globo e a dureza de pagar as contas de um teatro de rua com a mesma fluidez. Isso incomoda. Incomoda porque quebra o estereótipo da celebridade alienada. Quando ela se posiciona politicamente, não é (apenas) opinião de Twitter; é a visão de quem conhece a planilha de custos de manter a cultura viva num país instável.
👀 Por que o Teatro Rival é tão simbólico nesta história?
Hoje, ao observarmos sua trajetória, vemos que Leandra Leal utiliza sua imagem pública como um escudo para proteger o que acontece atrás das cortinas. Ela não molda o debate gritando mais alto, mas garantindo que o palco continue existindo para que outros possam gritar. Em tempos de algoritmos efêmeros, ela escolheu investir no concreto, na madeira do palco e na memória. E isso, senhoras e senhores, é a política mais radical que existe.


