O Brasileirão não é futebol: é o ansiolítico nacional
Esqueça o 4-3-3. A busca frenética pelos 'jogos de hoje' revela uma nação que usa os 90 minutos como única boia de salvação possível no caos cotidiano.

Imagine o Roberto. Terça-feira cinzenta em São Paulo, o trânsito na Marginal Pinheiros está aquele inferno estático de sempre, e o WhatsApp dele não para de apitar cobranças de trabalho. O que ele faz instintivamente assim que consegue uma brecha no sinal vermelho? Ele não abre o LinkedIn. Ele não verifica a cotação do dólar. Ele digita três palavras mágicas na barra de pesquisa: "jogos de hoje".
Roberto nem torce para o Cuiabá. Ele sequer sabe quem é o lateral-direito do Juventude. Mas ele precisa saber que a bola vai rolar às 19h. Por quê?
A liturgia do caos organizado
Não estamos falando de tática ou estatística avançada aqui. A obsessão diária pela tabela do Brasileirão tornou-se um ritual de purificação. Num país onde as regras políticas mudam a cada manchete e a economia é uma montanha-russa projetada por um sádico, o futebol oferece algo que a vida real nos nega: um início, um meio e um fim. E, o mais importante, regras claras. O apito toca, a bola rola, o jogo acaba. (Uma raridade, convenhamos).
O futebol no Brasil deixou de ser apenas esporte para virar infraestrutura psíquica. Sem ele, a semana não tem pontuação, vira uma frase longa e sem fôlego.
Essa busca incessante não é sobre o resultado. É sobre o pertencimento. Chegar no escritório (ou entrar na call do Zoom) sem saber quem jogou ontem é assinar um atestado de exílio social. O "você viu o gol?" substituiu o "como você está?" porque, honestamente, a segunda pergunta é perigosa demais para ser respondida com sinceridade ultimamente.
👀 Por que assistimos até jogos tecnicamente horríveis?
A fuga coletiva
Existe um cinismo velado em quem critica essa "alienação". Chamar o torcedor que atualiza o placar a cada cinco minutos de alienado é não entender a mecânica da sobrevivência brasileira. O estádio, seja ele de concreto ou digital, é o único lugar onde o grito preso na garganta faz sentido. É a catarse permitida.
Quando buscamos os "jogos de hoje", não estamos procurando entretenimento. Estamos procurando uma âncora. Estamos validando que, apesar de tudo estar pegando fogo ao redor, às 21h30 o Flamengo entra em campo e, por noventa minutos, o universo fará sentido. É uma ilusão? Talvez. Mas é a ilusão que nos permite acordar na quarta-feira e encarar tudo de novo.


