Olahraga

O Brasileirão não é futebol: é o ansiolítico nacional

Esqueça o 4-3-3. A busca frenética pelos 'jogos de hoje' revela uma nação que usa os 90 minutos como única boia de salvação possível no caos cotidiano.

TR
Taufik Rahman
11 Februari 2026 pukul 23.013 menit baca
O Brasileirão não é futebol: é o ansiolítico nacional

Imagine o Roberto. Terça-feira cinzenta em São Paulo, o trânsito na Marginal Pinheiros está aquele inferno estático de sempre, e o WhatsApp dele não para de apitar cobranças de trabalho. O que ele faz instintivamente assim que consegue uma brecha no sinal vermelho? Ele não abre o LinkedIn. Ele não verifica a cotação do dólar. Ele digita três palavras mágicas na barra de pesquisa: "jogos de hoje".

Roberto nem torce para o Cuiabá. Ele sequer sabe quem é o lateral-direito do Juventude. Mas ele precisa saber que a bola vai rolar às 19h. Por quê?

A liturgia do caos organizado

Não estamos falando de tática ou estatística avançada aqui. A obsessão diária pela tabela do Brasileirão tornou-se um ritual de purificação. Num país onde as regras políticas mudam a cada manchete e a economia é uma montanha-russa projetada por um sádico, o futebol oferece algo que a vida real nos nega: um início, um meio e um fim. E, o mais importante, regras claras. O apito toca, a bola rola, o jogo acaba. (Uma raridade, convenhamos).

O futebol no Brasil deixou de ser apenas esporte para virar infraestrutura psíquica. Sem ele, a semana não tem pontuação, vira uma frase longa e sem fôlego.

Essa busca incessante não é sobre o resultado. É sobre o pertencimento. Chegar no escritório (ou entrar na call do Zoom) sem saber quem jogou ontem é assinar um atestado de exílio social. O "você viu o gol?" substituiu o "como você está?" porque, honestamente, a segunda pergunta é perigosa demais para ser respondida com sinceridade ultimamente.

👀 Por que assistimos até jogos tecnicamente horríveis?
Porque o tédio de um 0 a 0 modorrento entre times do meio da tabela ainda é mais reconfortante e seguro do que a imprevisibilidade da vida fora das quatro linhas. No jogo ruim, o sofrimento é controlado e tem hora para acabar. Na vida, não.

A fuga coletiva

Existe um cinismo velado em quem critica essa "alienação". Chamar o torcedor que atualiza o placar a cada cinco minutos de alienado é não entender a mecânica da sobrevivência brasileira. O estádio, seja ele de concreto ou digital, é o único lugar onde o grito preso na garganta faz sentido. É a catarse permitida.

Quando buscamos os "jogos de hoje", não estamos procurando entretenimento. Estamos procurando uma âncora. Estamos validando que, apesar de tudo estar pegando fogo ao redor, às 21h30 o Flamengo entra em campo e, por noventa minutos, o universo fará sentido. É uma ilusão? Talvez. Mas é a ilusão que nos permite acordar na quarta-feira e encarar tudo de novo.

TR
Taufik Rahman

Jurnalis yang berspesialisasi dalam Olahraga. Bersemangat menganalisis tren terkini.