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O Grande Ilusionismo: Por que a "transparência digital" é uma nova cortina de fumaça

Prometeram-nos um aquário de vidro, mas entregaram um labirinto de links quebrados e PDFs ilegíveis. A digitalização do Estado não matou a burocracia; apenas a tornou invisível e mais eficiente em esconder o que importa.

LM
Lachlan MurdochJournalist
16 January 2026 at 05:35 am3 min read
O Grande Ilusionismo: Por que a "transparência digital" é uma nova cortina de fumaça

Vocês notaram como a palavra "transparência" é repetida em discursos oficiais com a mesma frequência mecânica de um tique nervoso? Nos últimos dez anos, o mantra foi o mesmo: digitalizar para liberar. A promessa era sedutora (e quem seria louco de ser contra?): transformar a pesada máquina estatal num aplicativo leve, onde cada centavo gasto seria rastreável com dois cliques.

A realidade, no entanto, é um banho de água fria servido num copo rachado.

Não se enganem com a estética clean dos portais governamentais ou com a profusão de logotipos "Gov.br". O que estamos vivendo não é uma era de clareza, mas de obfuscação por volume. O analista cético aqui precisa apontar o óbvio que ninguém quer admitir: jogar milhões de linhas de dados brutos em arquivos CSV mal formatados não é transparência. É tática de guerrilha para cansar quem investiga.

"Disponibilidade não é acessibilidade. Um PDF escaneado de uma tabela orçamentária é tão útil para a fiscalização digital quanto uma pedra lascada."

A Burocracia 2.0

Antigamente, para esconder uma licitação suspeita, engavetava-se o processo físico num porão úmido em Brasília. Hoje, a técnica é mais sofisticada: coloca-se o documento em "público", mas enterrado sob sete camadas de menus não intuitivos, com uma nomenclatura que apenas um burocrata de carreira (nascido antes de 1980) conseguiria decifrar. O cidadão comum tenta acessar o dado sobre a merenda escolar e acaba num loop infinito de autenticação.

E o tal "Portal da Transparência"? Já tentaram cruzar dados lá? A arquitetura da informação parece ter sido desenhada não para facilitar o acesso, mas para cumprir uma tabela de requisitos legais mínimos. É o famoso "está lá, se você não achou, o problema é seu".

👀 Por que os sites do governo mudam de layout a cada dois anos?

Não é por preocupação com a Experiência do Usuário (UX). A mudança constante, que quebra links antigos e confunde o cidadão, geralmente obedece a dois senhores: a necessidade política de uma nova gestão "imprimir sua marca" e, claro, novos contratos de TI milionários que justificam a refatoração do que já (mal) funcionava.

Quem ganha com o labirinto?

Aqui está o ponto cego que a maioria das análises ignora. A complexidade digital serve como um filtro censitário. Ela privilegia grandes corporações e bancas de advocacia que possuem softwares de crawling (raspagem de dados) e equipes dedicadas a minerar o Diário Oficial.

O cidadão comum? A pequena ONG local? O jornalista independente? Esses ficam travados no captcha ou na mensagem de "Erro 404". A digitalização, vendida como democratização, criou uma elite da informação. Se você precisa de um tutorial de 40 minutos no YouTube para entender como emitir uma guia ou consultar um repasse verba, o sistema falhou. Ou, na minha visão cínica, o sistema funcionou exatamente como foi projetado para funcionar: parecendo aberto, mantendo-se fechado.

Não aplaudam a próxima vez que um governante anunciar um "novo portal". Perguntem se ele vem com manual de instruções ou se é apenas mais um muro digital pintado de vidro.

LM
Lachlan MurdochJournalist

Journalist specialising in Politics. Passionate about analysing current trends.