O Grande Ilusionismo: Por que a "transparência digital" é uma nova cortina de fumaça
Prometeram-nos um aquário de vidro, mas entregaram um labirinto de links quebrados e PDFs ilegíveis. A digitalização do Estado não matou a burocracia; apenas a tornou invisível e mais eficiente em esconder o que importa.

Vocês notaram como a palavra "transparência" é repetida em discursos oficiais com a mesma frequência mecânica de um tique nervoso? Nos últimos dez anos, o mantra foi o mesmo: digitalizar para liberar. A promessa era sedutora (e quem seria louco de ser contra?): transformar a pesada máquina estatal num aplicativo leve, onde cada centavo gasto seria rastreável com dois cliques.
A realidade, no entanto, é um banho de água fria servido num copo rachado.
Não se enganem com a estética clean dos portais governamentais ou com a profusão de logotipos "Gov.br". O que estamos vivendo não é uma era de clareza, mas de obfuscação por volume. O analista cético aqui precisa apontar o óbvio que ninguém quer admitir: jogar milhões de linhas de dados brutos em arquivos CSV mal formatados não é transparência. É tática de guerrilha para cansar quem investiga.
"Disponibilidade não é acessibilidade. Um PDF escaneado de uma tabela orçamentária é tão útil para a fiscalização digital quanto uma pedra lascada."
A Burocracia 2.0
Antigamente, para esconder uma licitação suspeita, engavetava-se o processo físico num porão úmido em Brasília. Hoje, a técnica é mais sofisticada: coloca-se o documento em "público", mas enterrado sob sete camadas de menus não intuitivos, com uma nomenclatura que apenas um burocrata de carreira (nascido antes de 1980) conseguiria decifrar. O cidadão comum tenta acessar o dado sobre a merenda escolar e acaba num loop infinito de autenticação.
E o tal "Portal da Transparência"? Já tentaram cruzar dados lá? A arquitetura da informação parece ter sido desenhada não para facilitar o acesso, mas para cumprir uma tabela de requisitos legais mínimos. É o famoso "está lá, se você não achou, o problema é seu".
👀 Por que os sites do governo mudam de layout a cada dois anos?
Não é por preocupação com a Experiência do Usuário (UX). A mudança constante, que quebra links antigos e confunde o cidadão, geralmente obedece a dois senhores: a necessidade política de uma nova gestão "imprimir sua marca" e, claro, novos contratos de TI milionários que justificam a refatoração do que já (mal) funcionava.
Quem ganha com o labirinto?
Aqui está o ponto cego que a maioria das análises ignora. A complexidade digital serve como um filtro censitário. Ela privilegia grandes corporações e bancas de advocacia que possuem softwares de crawling (raspagem de dados) e equipes dedicadas a minerar o Diário Oficial.
O cidadão comum? A pequena ONG local? O jornalista independente? Esses ficam travados no captcha ou na mensagem de "Erro 404". A digitalização, vendida como democratização, criou uma elite da informação. Se você precisa de um tutorial de 40 minutos no YouTube para entender como emitir uma guia ou consultar um repasse verba, o sistema falhou. Ou, na minha visão cínica, o sistema funcionou exatamente como foi projetado para funcionar: parecendo aberto, mantendo-se fechado.
Não aplaudam a próxima vez que um governante anunciar um "novo portal". Perguntem se ele vem com manual de instruções ou se é apenas mais um muro digital pintado de vidro.
Je hante les couloirs du pouvoir. Je traduis le "politiquement correct" en français courant. Ça pique, mais c'est vrai. Les lois, je les lis avant le vote.


