Que horas começa o alívio? O BBB como o ansiolítico mais forte da nação
Milhões digitam a mesma pergunta no Google todos os dias. Não é apenas uma busca por horário da grade televisiva, é um pedido silencioso por uma pausa no caos da vida real.

São 22h15. O trânsito na Rebouças ainda está engarrafado, o boleto do condomínio vence amanhã e a notificação do grupo de trabalho no WhatsApp continua piscando. Mas Tiago, um analista de dados exausto de São Paulo, ignora tudo isso. Ele abre o navegador e digita, quase como um tique nervoso: "que horas começa o bbb hoje".
Ele sabe a resposta. Quase sempre é depois da novela. Mas a pergunta ao oráculo digital (o Google) não é sobre cronograma. É um ritual de passagem. É o momento exato em que ele pede permissão para desligar o cérebro adulto e entrar na "Nave Louca".
O Coliseu Climatizado
Tiago não está sozinho. Os picos de busca por essa frase simples revelam uma sincronia assustadora na psique brasileira. O Big Brother Brasil deixou de ser apenas um programa de televisão para se tornar uma infraestrutura emocional do país. Em uma nação onde a política é polarizada e a economia é uma montanha-russa sem freio, o reality show oferece algo raro: um caos controlado.
"Nós não assistimos para ver quem ganha o prêmio. Assistimos porque, dentro daquela casa, ao contrário da vida aqui fora, nós temos o poder de eliminar quem nos incomoda."
Essa ilusão de controle é viciante. Quando perguntamos "que horas começa", estamos na verdade perguntando: "quando posso começar a julgar a moral alheia para esquecer as minhas próprias falhas?". É catártico. É visceral. E (vamos ser honestos) é muito mais barato que terapia.
👀 Por que sentimos prazer em odiar os participantes?
A Alienação Necessária
Há quem torça o nariz. Dizem que é ópio, que é lixo cultural. Talvez seja. Mas culpar o espectador por buscar refúgio na futilidade é ignorar o peso da realidade brasileira. O escapismo não é um pecado; é uma ferramenta de sobrevivência. Quando a edição começa e o apresentador surge com aquele tom falsamente grave, o preço da carne ou a crise de segurança pública ficam suspensos no ar.
O problema surge quando a ficção substitui a realidade. Tratamos eleições como paredões e paredões como questões de Estado. A linha tênue se borra. Mas, por enquanto, enquanto o relógio não bate o horário mágico, o Brasil segura a respiração.
Então, que horas começa? Começa na hora em que precisamos parar.


