Sociedade

Que horas começa o alívio? O BBB como o ansiolítico mais forte da nação

Milhões digitam a mesma pergunta no Google todos os dias. Não é apenas uma busca por horário da grade televisiva, é um pedido silencioso por uma pausa no caos da vida real.

MS
Maria Souza
2 de fevereiro de 2026 às 02:013 min de leitura
Que horas começa o alívio? O BBB como o ansiolítico mais forte da nação

São 22h15. O trânsito na Rebouças ainda está engarrafado, o boleto do condomínio vence amanhã e a notificação do grupo de trabalho no WhatsApp continua piscando. Mas Tiago, um analista de dados exausto de São Paulo, ignora tudo isso. Ele abre o navegador e digita, quase como um tique nervoso: "que horas começa o bbb hoje".

Ele sabe a resposta. Quase sempre é depois da novela. Mas a pergunta ao oráculo digital (o Google) não é sobre cronograma. É um ritual de passagem. É o momento exato em que ele pede permissão para desligar o cérebro adulto e entrar na "Nave Louca".

O Coliseu Climatizado

Tiago não está sozinho. Os picos de busca por essa frase simples revelam uma sincronia assustadora na psique brasileira. O Big Brother Brasil deixou de ser apenas um programa de televisão para se tornar uma infraestrutura emocional do país. Em uma nação onde a política é polarizada e a economia é uma montanha-russa sem freio, o reality show oferece algo raro: um caos controlado.

"Nós não assistimos para ver quem ganha o prêmio. Assistimos porque, dentro daquela casa, ao contrário da vida aqui fora, nós temos o poder de eliminar quem nos incomoda."

Essa ilusão de controle é viciante. Quando perguntamos "que horas começa", estamos na verdade perguntando: "quando posso começar a julgar a moral alheia para esquecer as minhas próprias falhas?". É catártico. É visceral. E (vamos ser honestos) é muito mais barato que terapia.

👀 Por que sentimos prazer em odiar os participantes?
Psicólogos chamam isso de projeção de sombra. As características que mais detestamos nos participantes (egoísmo, preguiça, fofoca) são muitas vezes traços que reprimimos em nós mesmos. O BBB nos permite canalizar essa frustração para um alvo seguro, validado por milhões de outros telespectadores no Twitter (ou X, se preferir). O "cancelamento" é, no fundo, um ritual de purificação coletiva.

A Alienação Necessária

Há quem torça o nariz. Dizem que é ópio, que é lixo cultural. Talvez seja. Mas culpar o espectador por buscar refúgio na futilidade é ignorar o peso da realidade brasileira. O escapismo não é um pecado; é uma ferramenta de sobrevivência. Quando a edição começa e o apresentador surge com aquele tom falsamente grave, o preço da carne ou a crise de segurança pública ficam suspensos no ar.

O problema surge quando a ficção substitui a realidade. Tratamos eleições como paredões e paredões como questões de Estado. A linha tênue se borra. Mas, por enquanto, enquanto o relógio não bate o horário mágico, o Brasil segura a respiração.

Então, que horas começa? Começa na hora em que precisamos parar.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.