Economy

Banco do Brasil: Por trás do lucro bilionário, as rachaduras no concreto

Enquanto a Faria Lima estoura champanhe com os dividendos, nós abrimos as notas de rodapé. O lucro é real, mas o custo do crédito e o risco da 'canetada' contam outra história.

RC
Robert ChaseJournalist
February 14, 2026 at 02:01 PM2 min read
Banco do Brasil: Por trás do lucro bilionário, as rachaduras no concreto

Há algo sedutor nos números superlativos. Quando o Banco do Brasil (BB) anuncia um lucro líquido que faria bancos europeus corarem, a reação pavloviana do mercado é comprar. Afinal, quem não gosta de um payout gordo pingando na conta? Mas aqui na redação, preferimos guardar a euforia na gaveta e pegar a lupa. Porque em um cenário de Selic ainda desafiadora e endividamento das famílias no teto, resultados passados não garantem, nem de longe, a tranquilidade futura.

Você olhou para a linha de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos)? Deveria.

“O mercado financeiro tem memória curta e visão seletiva. O lucro de hoje muitas vezes é o calote mascarado de amanhã.”

O gigante estatal navega em águas turvas. A inadimplência, embora controlada se comparada aos pares privados (o famoso 'mix' de carteira mais seguro, dizem eles), começa a mostrar sinais de fadiga. O varejo sangra. E não adianta fingir que o problema é exclusivo dos bancos digitais com seus cartões de crédito distribuídos como panfletos na saída do metrô.

Narrativa OficialO Olhar Cético
Carteira de Agro é blindadaClima extremo e queda de commodities pressionam o produtor
Ação está barata (P/L baixo)O desconto é o preço do risco político (e ele não é zero)
Digitalização avançaCusto de servir ainda é alto comparado a neobancos

E temos, claro, o elefante na sala: o Agronegócio. Historicamente, é o cofre-forte do BB. Mas o agro não é mais aquele relógio suíço de previsibilidade. Com quebras de safra no Sul e oscilações brutais de preços no mercado internacional, a 'blindagem' da carteira rural pode não ser tão à prova de balas quanto os relatórios trimestrais sugerem (alguém viu o El Niño?). Se o produtor tosse, o balanço do BB pega uma pneumonia?

Outro ponto que incomoda: a tentação política. O banco tem resistido bravamente a ser usado como ferramenta parafiscal explícita, mantendo uma governança que agrada a Faria Lima. Mas até quando? Em tempos de aperto fiscal em Brasília, um banco público lucrando bilhões é um alvo tentador para subsidiar o desenvolvimento a qualquer custo.

Não se trata de profetizar o apocalipse. O Banco do Brasil é sólido, líquido e eficiente. Mas comprar a tese de investimento apenas olhando o retrovisor dos dividendos é ignorar que a estrada à frente tem neblina. O desconto nas ações BBAS3 não é uma promoção de Black Friday; é o mercado precificando o risco de que, a qualquer momento, a lógica de mercado dê lugar à lógica de estado.

RC
Robert ChaseJournalist

Journalist specializing in Economy. Passionate about analyzing current trends.