Économie

Banco do Brasil: Por trás do lucro bilionário, as rachaduras no concreto

Enquanto a Faria Lima estoura champanhe com os dividendos, nós abrimos as notas de rodapé. O lucro é real, mas o custo do crédito e o risco da 'canetada' contam outra história.

SG
Stéphane GuérinJournaliste
14 février 2026 à 14:012 min de lecture
Banco do Brasil: Por trás do lucro bilionário, as rachaduras no concreto

Há algo sedutor nos números superlativos. Quando o Banco do Brasil (BB) anuncia um lucro líquido que faria bancos europeus corarem, a reação pavloviana do mercado é comprar. Afinal, quem não gosta de um payout gordo pingando na conta? Mas aqui na redação, preferimos guardar a euforia na gaveta e pegar a lupa. Porque em um cenário de Selic ainda desafiadora e endividamento das famílias no teto, resultados passados não garantem, nem de longe, a tranquilidade futura.

Você olhou para a linha de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos)? Deveria.

“O mercado financeiro tem memória curta e visão seletiva. O lucro de hoje muitas vezes é o calote mascarado de amanhã.”

O gigante estatal navega em águas turvas. A inadimplência, embora controlada se comparada aos pares privados (o famoso 'mix' de carteira mais seguro, dizem eles), começa a mostrar sinais de fadiga. O varejo sangra. E não adianta fingir que o problema é exclusivo dos bancos digitais com seus cartões de crédito distribuídos como panfletos na saída do metrô.

Narrativa OficialO Olhar Cético
Carteira de Agro é blindadaClima extremo e queda de commodities pressionam o produtor
Ação está barata (P/L baixo)O desconto é o preço do risco político (e ele não é zero)
Digitalização avançaCusto de servir ainda é alto comparado a neobancos

E temos, claro, o elefante na sala: o Agronegócio. Historicamente, é o cofre-forte do BB. Mas o agro não é mais aquele relógio suíço de previsibilidade. Com quebras de safra no Sul e oscilações brutais de preços no mercado internacional, a 'blindagem' da carteira rural pode não ser tão à prova de balas quanto os relatórios trimestrais sugerem (alguém viu o El Niño?). Se o produtor tosse, o balanço do BB pega uma pneumonia?

Outro ponto que incomoda: a tentação política. O banco tem resistido bravamente a ser usado como ferramenta parafiscal explícita, mantendo uma governança que agrada a Faria Lima. Mas até quando? Em tempos de aperto fiscal em Brasília, um banco público lucrando bilhões é um alvo tentador para subsidiar o desenvolvimento a qualquer custo.

Não se trata de profetizar o apocalipse. O Banco do Brasil é sólido, líquido e eficiente. Mas comprar a tese de investimento apenas olhando o retrovisor dos dividendos é ignorar que a estrada à frente tem neblina. O desconto nas ações BBAS3 não é uma promoção de Black Friday; é o mercado precificando o risco de que, a qualquer momento, a lógica de mercado dê lugar à lógica de estado.

SG
Stéphane GuérinJournaliste

L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.