Bologna: O banquete tático, a ressaca europeia e o adeus à mediocridade
Eles trocaram o marasmo do meio da tabela pela música da Champions. Mas no Renato Dall'Ara, o sonho de uma noite de verão virou um teste de sobrevivência para o clube mais intelectual da Itália.

Há um cheiro específico nas ruas de Bolonha quando a primavera vira verão. Não é apenas o aroma de ragu escapando das trattorias da Via del Pratello, mas uma mistura de euforia universitária e um conservadorismo burguês que define a cidade. Durante décadas, o Bologna FC foi exatamente como seus pórticos medievais: estático, confiável, imóvel. Terminava em 10º, 12º, talvez umusado 9º lugar. Ninguém se importava. Era a mobília da Série A.
Até que alguém decidiu chutar a mesa.
Para entender o que aconteceu no Estádio Renato Dall'Ara, precisamos esquecer as planilhas de Excel por um minuto. A história não começa com o dinheiro do proprietário Joey Saputo (embora ajude, e muito), mas com uma crise de identidade. O clube, detentor de sete Scudetti que pareciam relíquias de um museu empoeirado, cansou de ser irrelevante. A contratação de Thiago Motta não foi uma aposta; foi um manifesto de contracultura.
“O futebol não é matemática, é jazz. E Motta ensinou essa banda a improvisar sem perder o ritmo.”
Sob a batuta do ítalo-brasileiro, vimos algo raro no Calcio moderno: a valorização do caos organizado. Zirkzee não era um centroavante, era um fantasma que flutuava entre as linhas (hoje, ele é saudade em Manchester). Calafiori não era um zagueiro, era um armador que desarmava (agora, brilha em Londres). O time não jogava para não perder; jogava para confundir. E funcionou. A classificação para a Champions League após 60 anos não foi um acidente de percurso, foi a consequência de recusar o dogma do futebol defensivo italiano.
| Critério | A Era da Mediocridade (Média 2015-2022) | A Revolução (2023/24) |
|---|---|---|
| Posição Final | 12º Lugar | 5º Lugar (Champions) |
| Identidade | Reativo / Contra-ataque | Posse Fluida / Pressão Alta |
| Valor de Mercado | Estagnado | Explosão (+€100mi em vendas) |
Mas aqui entra o cinismo cruel do futebol contemporâneo. O sucesso de um clube "médio" é, paradoxalmente, o início do seu desmembramento. A Europa não apenas assistiu; ela saqueou. Motta foi para a Juventus, os pilares do time foram vendidos a peso de ouro para a Premier League. O que resta? O dinheiro no banco e a memória.
Agora, sob o comando de Vincenzo Italiano, o Bologna vive a "ressaca da glória". A Champions League é uma amante cara e exigente. O elenco, renovado mas sem a mesma química telepática, sofre para manter o ritmo em duas frentes. É o preço da ambição. O torcedor rossoblù, que antes se contentava com a segurança do meio da tabela, agora provou o caviar. E voltar para a mortadela, mesmo que seja a melhor do mundo, tem um gosto amargo.
O Bologna provou que é possível desafiar a gravidade financeira da Série A, onde Inter, Milan e Juve orbitam em outra galáxia. A questão não é se eles vão repetir o feito este ano (spoiler: dificilmente), mas se a estrutura criada por Saputo aguenta o tranco de ser, finalmente, um protagonista. O gigante não está mais dormindo, mas está atordoado com a luz dos holofotes.


