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Bologna: O banquete tático, a ressaca europeia e o adeus à mediocridade

Eles trocaram o marasmo do meio da tabela pela música da Champions. Mas no Renato Dall'Ara, o sonho de uma noite de verão virou um teste de sobrevivência para o clube mais intelectual da Itália.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
23 février 2026 à 20:023 min de lecture
Bologna: O banquete tático, a ressaca europeia e o adeus à mediocridade

Há um cheiro específico nas ruas de Bolonha quando a primavera vira verão. Não é apenas o aroma de ragu escapando das trattorias da Via del Pratello, mas uma mistura de euforia universitária e um conservadorismo burguês que define a cidade. Durante décadas, o Bologna FC foi exatamente como seus pórticos medievais: estático, confiável, imóvel. Terminava em 10º, 12º, talvez umusado 9º lugar. Ninguém se importava. Era a mobília da Série A.

Até que alguém decidiu chutar a mesa.

Para entender o que aconteceu no Estádio Renato Dall'Ara, precisamos esquecer as planilhas de Excel por um minuto. A história não começa com o dinheiro do proprietário Joey Saputo (embora ajude, e muito), mas com uma crise de identidade. O clube, detentor de sete Scudetti que pareciam relíquias de um museu empoeirado, cansou de ser irrelevante. A contratação de Thiago Motta não foi uma aposta; foi um manifesto de contracultura.

“O futebol não é matemática, é jazz. E Motta ensinou essa banda a improvisar sem perder o ritmo.”

Sob a batuta do ítalo-brasileiro, vimos algo raro no Calcio moderno: a valorização do caos organizado. Zirkzee não era um centroavante, era um fantasma que flutuava entre as linhas (hoje, ele é saudade em Manchester). Calafiori não era um zagueiro, era um armador que desarmava (agora, brilha em Londres). O time não jogava para não perder; jogava para confundir. E funcionou. A classificação para a Champions League após 60 anos não foi um acidente de percurso, foi a consequência de recusar o dogma do futebol defensivo italiano.

CritérioA Era da Mediocridade (Média 2015-2022)A Revolução (2023/24)
Posição Final12º Lugar5º Lugar (Champions)
IdentidadeReativo / Contra-ataquePosse Fluida / Pressão Alta
Valor de MercadoEstagnadoExplosão (+€100mi em vendas)

Mas aqui entra o cinismo cruel do futebol contemporâneo. O sucesso de um clube "médio" é, paradoxalmente, o início do seu desmembramento. A Europa não apenas assistiu; ela saqueou. Motta foi para a Juventus, os pilares do time foram vendidos a peso de ouro para a Premier League. O que resta? O dinheiro no banco e a memória.

Agora, sob o comando de Vincenzo Italiano, o Bologna vive a "ressaca da glória". A Champions League é uma amante cara e exigente. O elenco, renovado mas sem a mesma química telepática, sofre para manter o ritmo em duas frentes. É o preço da ambição. O torcedor rossoblù, que antes se contentava com a segurança do meio da tabela, agora provou o caviar. E voltar para a mortadela, mesmo que seja a melhor do mundo, tem um gosto amargo.

O Bologna provou que é possível desafiar a gravidade financeira da Série A, onde Inter, Milan e Juve orbitam em outra galáxia. A questão não é se eles vão repetir o feito este ano (spoiler: dificilmente), mas se a estrutura criada por Saputo aguenta o tranco de ser, finalmente, um protagonista. O gigante não está mais dormindo, mas está atordoado com a luz dos holofotes.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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