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A ressaca da Copinha: Para onde vão os meninos que a TV parou de mostrar?

Enquanto a taça é levantada e os contratos milionários são assinados, milhares de jovens encaram o abismo do dia seguinte. Bem-vindo à máquina de moer sonhos.

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Rafael TorresPeriodista
15 de enero de 2026, 16:013 min de lectura
A ressaca da Copinha: Para onde vão os meninos que a TV parou de mostrar?

Imagine o Lucas. Dezessete anos, chuteiras coloridas compradas em doze vezes pela mãe, e uma mala cheia de esperança despachada no bagageiro de um ônibus rodoviário. Ele saiu do interior do Maranhão com a promessa de um "olheiro" que jurou que ele tinha o drible do Vinícius Júnior. Durante duas semanas, em gramados sintéticos castigados pelo sol de janeiro em São Paulo, Lucas se sentiu o rei do mundo. Ele estava na Copinha. (Talvez você tenha visto um story dele, vibrando com um gol na fase de grupos).

Mas hoje, enquanto as manchetes estampam a nova joia de 60 milhões de euros vendida para o Real Madrid, Lucas está sentado no meio-fio da rodoviária, com a rescisão na mão e o silêncio do celular. Ninguém te conta sobre o Lucas.

A matemática cruel do funil

Nós amamos a narrativa do herói. É viciante. Mas a Copinha, sob o verniz de "festa do futebol", opera como uma bolsa de valores brutal onde a mercadoria respira e sangra. Para cada garoto que sobe ao pódio, centenas são descartados como produtos com prazo de validade vencido. Não é pessimismo, é a arquitetura do sistema.

Os clubes, agora transformados em empresas (as famosas SAFs), precisam de liquidez. O ativo "jogador" precisa render ou ser liquidado. Aquele romantismo do dirigente que segurava o garoto porque "ele tem jeito"? Morreu junto com o futebol de várzea. Hoje, se a métrica de desempenho físico não bater com o algoritmo do scout europeu, tchau.

O Imaginário PopularA Realidade Estatística (CBF)
"Vou ficar rico jogando bola"82% dos jogadores profissionais ganham até R$ 1.000 (salário mínimo)
"A Copinha é a grande chance"Menos de 1% dos atletas da base se firmam em grandes clubes
"Carreira longa e fama"Aposentadoria média forçada antes dos 25 anos por falta de clube

O fardo da "salvação da família"

O que torna essa queda mais dolorosa não é apenas o fim do sonho esportivo, mas o colapso do projeto econômico familiar. Lucas não joga só por ele. Ele joga para reformar a casa da avó, para pagar a dívida do pai, para tirar os irmãos da escola pública. Quando ele falha (ou melhor, quando o sistema falha com ele), ele não volta apenas como um ex-atleta. Ele volta como um investimento falido.

"O vestiário pós-eliminação na Copinha é o lugar mais triste do mundo. Não tem choro de derrota esportiva. Tem choro de quem não sabe como vai pagar o aluguel no mês seguinte." — Relato anônimo de um treinador de base.

Essa pressão cria uma geração de jovens com ansiedade crônica antes mesmo de assinarem o primeiro contrato profissional. Vemos os dribles, mas ignoramos os ataques de pânico no banheiro antes da partida decisiva. O futebol brasileiro virou uma fábrica de talentos, sim, mas também uma linha de montagem de traumas.

Quem lucra com a ilusão?

A pergunta que fica latejando é: a quem serve essa peneira gigante? Aos empresários que garimpam volume para achar uma pepita de ouro e descartar o resto. Aos clubes que usam a base como moeda de troca para abater dívidas. E, ironicamente, a nós, o público, que consumimos a tragédia e a glória com a mesma voracidade, sem perguntar o nome do garoto que saiu de campo chorando porque sabe que aquela foi sua última chance.

O Lucas provavelmente vai arrumar um emprego no comércio local. Ele vai jogar na várzea aos domingos e será o craque do bairro. Alguém vai dizer: "Nossa, como ele não virou profissional?". E ele vai sorrir, um sorriso meio de lado, sabendo que no futebol, talento é apenas o bilhete de entrada. A permanência custa a alma.

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Rafael TorresPeriodista

Periodista especializado en Deporte. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.