Política

CPMI do INSS: O teatro de R$ 6,3 bilhões e a guerra pelos cortes

Enquanto bilhões somem das aposentadorias, Brasília transforma a investigação em um imenso estúdio de gravação para as eleições de 2026.

CM
Carlos MendozaPeriodista
26 de febrero de 2026, 17:033 min de lectura
CPMI do INSS: O teatro de R$ 6,3 bilhões e a guerra pelos cortes

Mais de seis bilhões de reais. Pense no volume desse dinheiro escoando, mês a mês, dos contracheques de quem sobrevive com um salário mínimo. A fraude dos descontos associativos não autorizados no INSS deveria ser o maior escândalo financeiro da década. No entanto, o que vemos na capital federal?

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS foi sequestrada. Longe de ser uma força-tarefa implacável para rastrear e recuperar o patrimônio de milhões de idosos, a comissão virou um estúdio de gravação de baixo orçamento. Deputados e senadores disputam quem grita mais alto nos seus dez minutos de fala (tudo friamente calculado para gerar engajamento imediato no TikTok e no Instagram).

Quem é o verdadeiro culpado pela sangria? Depende do lado do plenário em que você se senta.

Lado da TrincheiraAlvos PrincipaisPeríodo em FocoEstratégia Eleitoral (2026)
Oposição (Direita)Lulinha, Frei Chico, Sindicatos de esquerda2023 - 2024 (Governo Lula)Vincular o clã presidencial e aliados diretos aos desvios sindicais.
Situação (Esquerda)Gestão anterior, Paulo Guedes, "Careca do INSS"2019 - 2022 (Governo Bolsonaro)Provar que a porteira da fraude foi escancarada na antiga gestão.

O nível de cinismo é palpável. Quando a oposição aprova a quebra do sigilo de familiares do presidente e a base governista manobra para blindar aliados (enquanto aponta o dedo para os anos Bolsonaro), a matemática real da fraude simplesmente desaparece. Onde foram parar as cifras bilionárias? Como centenas de associações "fantasmas" conseguiram plugar seus sistemas na base de dados do INSS com tamanha facilidade?

"Uma fraude de 6,3 bilhões de reais não acontece por um simples lapso tecnológico. Ela exige um ecossistema perfeitamente azeitado de conivência estatal e cegueira financeira conveniente."

Aqui reside o elefante na sala que nenhum parlamentar com mandato quer incomodar de fato. Mas vamos ao que os vídeos virais da CPMI escondem: a estrutura pública permitiu tudo isso. O sistema da Dataprev é tão esburacado que, nos corredores de Brasília, ganhou o infame apelido de "Vazaprev". Em setembro de 2024, a própria Dataprev chegou a entregar uma ferramenta biométrica que acabaria com a farra dos sindicatos, mas a cúpula do Ministério da Previdência simplesmente não a priorizou. Existe um abismo de governança que foi ignorado sucessivamente pelos últimos governos. A culpa recai sempre sobre despachantes e lobistas menores, mas raramente atinge a burocracia do alto escalão que homologou esses acordos obscuros.

E o mercado financeiro nessa história? Bancos e processadoras de pagamento que liquidavam esses valores lucraram rios de dinheiro cobrando taxas por transação. Eles não viram nada suspeito em associações sem histórico recebendo dezenas de milhões do dia para a noite? (O sistema financeiro, como de costume, sai blindado das narrativas histéricas da política).

O que essa apuração muda de verdade na vida das pessoas? Para os aposentados lesados, muito pouco. A chance de o dinheiro retornar de forma integral ao bolso das vítimas é uma miragem. O crime compensou e, agora, rende valioso capital político. Enquanto os eleitores brigam de forma raivosa nos comentários para defender seus respectivos ídolos, os verdadeiros operadores da fraude assistem a tudo de camarote. O espetáculo da indignação seletiva, afinal, está garantido até a abertura das urnas.

CM
Carlos MendozaPeriodista

Periodista especializado en Política. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.