Política

Damares Alves: Quando a Caricatura Vira Arma Política

Rir de Damares é o esporte favorito da oposição, mas enquanto você compartilha o meme, ela consolida poder. Uma análise fria da máquina de guerra cultural que opera sob o manto da fé.

CM
Carlos MendozaPeriodista
16 de enero de 2026, 06:013 min de lectura
Damares Alves: Quando a Caricatura Vira Arma Política

Você riu da goiabeira. Fez piada com o "menino veste azul, menina veste rosa". E enquanto o Twitter progressista se engasgava com a própria superioridade moral (e acumulava likes numa bolha hermética), Damares Alves empilhava votos. O erro crasso da análise política tradicional foi tratar a agora Senadora da República como um acidente folclórico, uma tia do zap que chegou ao poder por sorteio. Nada poderia ser mais enganoso.

A postura cética nos obriga a olhar para os números e para o método, ignorando o ruído superficial. Damares não é uma falha no sistema; ela é, talvez, a versão mais atualizada do software conservador brasileiro. Ela entendeu antes de muitos generais e doutores em ciência política que, na economia da atenção, a indignação é o combustível mais barato que existe.

A estratégia do ruído calculado

Cada vez que Damares solta uma frase que parece desconexa ou anticientífica, o algoritmo das redes sociais entra em êxtase. A esquerda compartilha para ridicularizar, a direita compartilha para defender (ou para atacar quem ridiculariza). O resultado? Onipresença.

Mas há uma camada mais profunda aqui. O que soa como delírio para a Faria Lima ou para o Leblon, soa como acolhimento para o Brasil profundo. A linguagem de Damares é a linguagem do pentecostalismo periférico: dramática, focada no sofrimento, na redenção e na batalha espiritual.

"Damares não fala para a manchete da Folha de S.Paulo. Ela fala para o grupo de oração de terça-feira à tarde. E é lá, longe dos editoriais, que a legitimidade política é construída hoje."

Ao se colocar como alvo de chacota das "elites intelectuais", ela ativa o gatilho da perseguição — um elemento central na identidade cristã evangélica. Quanto mais batem nela, mais ela se torna o escudo de seus eleitores.

Dados: O abismo entre a percepção e a realidade

Vamos dissecar a eficiência tática por trás das polêmicas. O que parece improviso muitas vezes esconde uma agenda de consolidação de base.

O Evento Viral (O Meme)A Leitura Cética (O Ganho Real)
Jesus na GoiabeiraHumanização da figura política. Conexão direta com vítimas de abuso e depressão que buscam refúgio na fé, não no Estado laico.
Meninos de azul, meninas de rosaSimplificação binária para um eleitorado confuso com as novas nomenclaturas de gênero. Bandeira fincada no conservadorismo moral.
Denúncias gráficas sobre o MarajóMobilização de pânico moral. Captação de recursos e atenção internacional para sua pauta, independente da veracidade factual imediata.

Do púlpito para a tribuna

Agora no Senado, a dinâmica mudou? Pouco. Damares provou ser uma legisladora muito mais astuta do que seus críticos previam. Ela domina o regimento, sabe tumultuar uma CPI e, crucialmente, mantém a temperatura da base elevada sem precisar da caneta presidencial (algo que outros bolsonaristas órfãos não conseguiram fazer).

Há quem diga que ela é apenas uma sombra do ex-presidente. Duvido. A marca "Damares" hoje tem uma autonomia perigosa. Ela opera na intersecção entre a proteção da infância (um tema universal) e o pânico moral (uma ferramenta de controle). Quem ousa criticar alguém que diz lutar contra o abuso infantil? É uma armadilha retórica perfeita.

O futuro da direita brasileira passa, inevitavelmente, pela capacidade de Damares de converter esse capital digital em estrutura partidária sólida. Se continuarmos a analisá-la com o desdém de quem analisa um meme de internet, continuaremos sendo surpreendidos pelas urnas. A cruz e o algoritmo nunca estiveram tão alinhados.

CM
Carlos MendozaPeriodista

Periodista especializado en Política. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.