Économie

A miragem do gás barato: a matemática mágica que esvazia seu bolso

Prometeram que o botijão caberia no orçamento, mas esqueceram de avisar quem paga a diferença. Spoiler: é você, na bomba de gasolina ou na prateleira do supermercado.

SG
Stéphane GuérinJournaliste
16 janvier 2026 à 11:353 min de lecture
A miragem do gás barato: a matemática mágica que esvazia seu bolso

Toda vez que um político sobe ao palanque (ou abre uma live) para anunciar a "redução histórica" no preço do gás de cozinha, um economista sério tem um espasmo involuntário. A narrativa é sedutora, quase heroica: o governo, em sua infinita bondade, domou a ganância do mercado para proteger o almoço de domingo da família brasileira. Soa lindo. Pena que não resiste a cinco minutos de calculadora.

Não se engane. A ideia de um "preço justo" imposto por decreto ignora a regra mais básica da economia: alguém sempre paga a conta. Quando a Petrobras ou o Tesouro Nacional decidem absorver a variação do petróleo internacional para manter o botijão artificialmente barato, cria-se um buraco negro fiscal. E adivinhe quem é sugado por ele?

A política de subsídio ao combustível fóssil é como tomar analgésico para curar uma fratura exposta: alivia a dor momentânea, mas o osso continua quebrado e a infecção se espalha.

A distorção começa na cadeia de distribuição. O governo anuncia a queda na refinaria, mas o preço final na revenda do seu bairro mal se mexe. Por quê? Porque o mercado não opera por decreto. Custos de transporte, margens de lucro locais e impostos estaduais engolem a tal "bondade" antes que ela chegue ao seu fogão. O alívio anunciado no Jornal Nacional vira frustração na hora de passar o cartão.

Quem ganha x Quem perde

Vamos dissecar essa operação. A promessa de proteção social muitas vezes esconde uma transferência de renda perversa, onde o imposto pago por todos (inclusive os mais pobres no consumo de arroz e feijão) subsidia uma medida que, ironicamente, tenta ajudar os mais pobres.

A Narrativa OficialA Realidade Econômica
"Baixamos o preço na refinaria para ajudar o povo."A diferença vira prejuízo para a estatal ou dívida pública, gerando inflação futura.
"O gás vai chegar a R$ 60,00."O revendedor final mantém a margem para cobrir seus próprios custos crescentes. O preço cai centavos.
"Estamos protegendo os mais vulneráveis."Subsídios universais beneficiam também quem pode pagar, drenando recursos da saúde e educação.

O que poucos dizem (talvez por ser impopular demais) é que o foco deveria estar na renda, não no preço. Tentar controlar o preço de uma commodity global como o petróleo é brigar com a gravidade. Enquanto o salário mínimo for corroído por uma política fiscal irresponsável, o gás continuará parecendo caro, custe ele R$ 80 ou R$ 120.

A verdadeira ilusão não é o preço do botijão. É a crença de que o governo pode canetar a prosperidade sem gerar uma fatura de juros e inflação que chegará, pontualmente, no mês seguinte. O gás do povo, no fim das contas, é pago com o suor do próprio povo.

SG
Stéphane GuérinJournaliste

L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.